Mudanças

Nestes mais de sessenta e seis anos de vida, quase entrando na década de setenta anos, ainda pleno em saúde, encantado com o mundo em que vivemos, embora tenha o pobre mundo suas deficiências, leia-se ou entenda-se problemas inerentes aos seres que o habitam, fazem-no de escravo, sob a batuta da poluição, desmatamento, sofrimento dos menos assistidos pela falta de sorte de não terem nascido em berço esplêndido, a palavra esplêndido faz parte do nosso hino nacional, própria ou impropriamente, pouco tenho me mudado.

Não por desejo próprio. E sim por circunstâncias não inerentes ao meu desejo.

Confesso, de peito a descoberto, que mudo mais de textos, de histórias saídas da inspiração que me cavouca a mente, cada vez mais fecunda, como as terras da rocinha encantada agora em mãos de um amigo confiável, hoje com as chaves daquele reino onde os animais se sentem a vontade, quase não morrem mais, a exemplo de quando eu tentava brincar de fazendeiro ausente.

A primeira mudança que me recordo foi a de Boa Esperança, cidade amiga, agora banhada pelo Rio Grande embarrigado, domesticado como um cão feroz, para a que onde estou hoje, a ex Santana das Lavras do Funil, o mesmo funil que foi sorvido pelas mesmas águas domadas pelo mesmo rio que um dia foi grande. E hoje cerceado em sua libertinagem de caminhar rio abaixo, formando ondas revoltas, cachoeiras antes indomáveis, pulando pedras, abrigando peixes ariscos que agora quase não mais sobem o rio por falta de estradas na época da piracema, tempo de amor, de se acasalarem.

Aqui aportei em 1955. Era criança, ainda menino.

A rua onde morava era a Costa Pereira, bem perto de um hospital e de um clube de esportes o qual ainda frequento bem mais de quando menino.

Ali viviam meus pais e meu irmão. Tempos depois se juntou a nós outra criança, que, no dia de hoje, essa mesma criança conta com mais de cinquenta anos de idade. Ainda menina.

Como fui feliz naquela casa, de número 152!

A tal rua era quase de domínio dos Rodartes. Fora alguns vizinhos os quais, a esmagadora maioria já se mudou, ou pro céu ou deixou rastros da sua trajetória pela terra através dos seus descendentes mais jovens.

Um dia perguntei, numa outra crônica: “pra onde foram os meninos da Costa Pereira”?

A maioria não me respondeu. Ou por falta de terem ouvido essa indagação, ou, simplesmente por um singelo motivo – no céu não tem telefone ou e-mail.

O outro pouso, a outra mudança, foi em direção da capital da minha querida Minas Gerais.

Como Belo Horizonte se modificou! Ficou grandona, espichadona, cheia de carros apressados, de gente correndo atrás do vil metal.

Ali permaneci o insuficiente para aprender um cadinho da arte médica. Foram mais ou menos oito anos.

Durante aqueles verdes anos lindas moçoilas atreveram-se a estreitar-me entre os braços. Foram beijos amassos, passarinhadas de mãos, nada mais.

Para me considerar médico por completo precisava ir mais longe. A Urologia foi continuada em outra mudança. Fui para Madrid sem ver as touradas de ali.

Passei um ano na capital da Espanha. Ali desbravei meio mundo como estudante latino.

Retornei ao meu país nos idos anos de 1977. Já como profissional bem formado, ainda empunhando o bisturi com mãos trêmulas. Tremores estes que só com a experiência se foram.

De começo, ainda solteiro, deixei a casa da Rua Costa Pereira em direção a um bairro que daqui, da janela onde escrevo, se permite ver. Por falar em visão de aqui mesmo, do sétimo andar do consultório onde exercito minha dupla militância, me desdobrando entre o médico e o escritor, pode-se admirar quase em totalidade o meu passado.

Depois de casado, e bem, com dois filhos agora de aliança no dedo anular da mão esquerda, um netinho lindo a coroar de felicidade minha trajetória de vida, passei a habitar em uma casa grandona bem perto de onde desfrutei os primeiros anos de matrimônio.

Foram lindos anos que ali fiquei.

A seguir me mudei novamente. Fui parar em um condomínio de onde não pretendo mudar. A não ser que o destino me carregue em seus braços mambembes.

Daqui do alto, da janela por onde o sol entra sem pedir licença, quase encoberto por um edifício que em breve vai me tapar a visão da beleza da serra verde que daqui se permite ver, percebo, bem perto, um pequeno prédio recoberto em pastilhas verde brancas, onde já vive outro naco da minha família maravilhosa com quem desfruto os ares da vida, antes que a morte chegue.

Minha filha querida, seu esposo, meu primeiro neto de nome Theo, já moram bem perto de aqui.

Talvez, essa residência de nome apartamento, do edifício Leblon, embora seja longe do mar do Rio de Janeiro, se torne meu jazigo perpétuo. Não minha sepultura pos mortem. E sim um lugar pleno de vida, onde eu viva em paz, comigo mesmo.

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