Cansei de lutar

Até quando vale a pena prolongar a vida quando uma doença incurável toma conta da gente?

Até quando prolongar o sofrimento à mercê de escaras, agonizando sem poder sequer levantar a mão, a suplicar que nos deixem partir e avoar aos céus.  Implorando para que a morte nos leve em suas asas negras?

Até quando viver convivendo com doenças consumptivas. Que se aboletam em nós e teimam em não sair. Deixando-nos inermes num leito de hospital. Reduzidos a farrapos humanos. Desprovidos de carnes reduzidos a ossos. Sem nenhuma perspectiva de nos curarmos. A espera do momento final que não chega nunca. Embora desejássemos abreviar nossa estada aqui nesse planeta tão lindo. Onde vivemos tantos anos, mas gostaríamos, se tivéssemos saúde, de viver alguns anos mais.

Ate quando me questiono, sem saber a resposta, valeria a pena ficar por aqui, sem poder vagar por ali. Quando a gente não pode mais caminhar pelas próprias pernas.  Respirar ao ar puro da manhã. Abrir os olhos e admirar a beleza do despertar das flores numa manhã de primavera.

São tantos até quandos que não sei aonde irei parar. Bem sei que pouco sei. Mas nunca irei saber as respostas de tantas indagações.

Bem conheço aquela senhora. Que já viveu e conviveu com a felicidade de quando jovem ainda.

Dona Odete agora completou oitenta janeiros sem saber quantos fevereiros ainda lhe restam.

Uma guerreira na juventude. Mulher valente e resistente as intempéries da vida. Nunca se curvou às adversidades. De poucos estudos e muita sabedoria.

Aos dezessete, por um descuido, sem tomar a pílula contraceptiva, desvirginou-se com um rapaz que se furtou a compartilhar a cria que dentro dela se formava.

Criou o rebento sozinha e fez dele gente de bem. Não mediu esforços para encaminhá-lo no melhor caminho. Seu filho único agora tem pela mãe o maior carinho.

Quando a conheci, no hospital onde trabalhava, Dona Odete era enfermeira e passou a cuidar dos idosos quando se jubilou. Ainda apta ao trabalho dizia ela. Nunca irei me aposentar por completo a não ser quando as forças me abandonarem de vez.

Aos setenta e cadinho ela ainda morava na vizinhança da minha rua. Sozinha já que seu filho havia se mudado pra outra cidade.

Ao sair de casa encontrava dona Odete caminhando lentamente pelas calçadas.

Há um mês ela ainda podia ser vista. De repente desapareceu.

Onde estaria aquela senhora que todos amavam? Um exemplo de pessoa boa. Gentil com as pessoas, desprovida de vaidades e sempre pronta a ajudar.

Não se sabia o paradeiro da dona Odete. A qual sempre era vista nas cercanias, distribuindo simpatia e gentileza aos passantes.

Foi na semana passada que tive noticias dela.

Dona Odete caiu enferma. Um tumor de natureza maligna tomou-a por inteira.

Quem a visse antes não a reconheceria jamais no momento presente.

Reduzida a pele e osso. Acamada desde o ano passado.  Ela não mais sorria aquele sorriso iluminado. Chorava com ela mesma sem deixar os outros perceberem toda sua angústia e sofrimento.

Bem sabia eu que pouco tempo lhe restava. Dona Odete estava no seu limite.

Suas últimas forças a faziam se manter de pé. Mas na minha visita nem isso se podia ver.

A gentil senhora agonizava. Admirava o entorno sem se queixar.

Estendi-lhe a mão. Dei-lhe um carinhoso abraço. Foi quando ela me falou de mansinho com uma vozinha quase inaudível.

“Meu amigo doutor Paulo. Que bom que o senhor veio me visitar. Agora estou aqui nesse leito de hospital. Entregue a minha doença, quase terminal. Já tentei de tudo e nada mais me resta a fazer. Confesso estar cansada de lutar. Agora espero a minha partida. Desisti de lutar contra essa enfermidade. Ela me venceu. E estou convencida a me deixar levar.”

Numa semana apenas seu desejo foi satisfeito. Dona Odete se foi pra sempre. Cansada de lutar.

 

 

 

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