E quem não os tem?
Tem gente que tem não somente um como mais de cem.
Mas soluções podem ser encontradas. Tanto resolvendo aqueles de matemática como aqueloutros que nos importunam no dia a dia.
Os problemas de aritmética pra mim eram os mais complicados. Não sabia como resolvê-los; assim com as palavras e letras me atraiam. Tinha verdadeira aversão pelos numerais. Até hoje não sei fazer contas e perdi a conta de quantas noites indormidas passei pensando na prova de matemática na qual fiquei em segunda época naquela época da minha infância perdida que os anos não voltam mais.
Já os problemas de tempos pretéritos eram outros. No meu caso como passar o mês inteiro com aquela mesada de não mais de cem cruzeiros velhos. Já que o real ainda estava longe de se tornar realidade. Feito moeda anos depois.
Um dos meus problemas maiores era como enfrentar o pai daquela mocinha pudica e dizem ter sido recatada. Quando chegávamos tarde da hora dos bailes de carnaval de tempos idos. Cheirando lança perfume. Exalando da boca um cheiro de cachaça. Naquela ressaca fedida vomitávamos no tapete da sala de visitas. E dizíamos ao velho que havíamos chegado da missa depois de rezar não sei quantos padres nossos e duzentenas de Aves Marias. Não carece dizer que o pai da moça não cria na nossa história. Que mais parecia conto da Carochinha igualzinha aquela do padre nosso do vigário vigarista.
Já tive problemas maiores. Como passar no vestibular vindo de uma cidade do interior. Foi preciso repetir o dito. Mas o problema foi resolvido depois de um cursinho preparatório bem feito.
Já hoje meus problemas se reduziram. Minguaram tanto que faço de conta que eles não existem. As contas do final do mês não fecham. Tenho de pedir algum dinheiro emprestado a minha dona. Se ela tem ela me da. Prometo pagar o mês que vem. Se não pagar nem eu já que meu sobre é Abreu.
Já meu amigo, de nome Filisbino Felizardo. Unzinho que se tem problemas ele os ignora. Jura e desconjura que problemas são degraus de uma escada a serem transpostos. Um a um até chegar ao topo. Sujeitinho desprovido de vaidades e ambição. Pra elezinho azar é festa. Tudo tá bom antes que piore. Para descomplicar apelidei-o de Sem Problema.
Sem Problemas vive numa casinha à beira da estrada. Quando chove a lama pede entrada pra dentro de casa. Quando seca a poeira pede pouso. Mas ele não esquenta a pioenta. Faz de conta que tudo são flores sem espinhos.
Sem problemas vive solitário naquela morada junto a ele mesmo. Dispensa outros moradores. Já teve mulheres de todas as cores, de várias idades e muitos amores. Agora se cansou e ficou imune a sentimentos menores. Prefere viver desacompanhado sem ser preciso enfrentar outra dona que pensa ser sua dona mandona.
Sem Problemas, também chamado Zé Pepino. E como ele adora aquela fruta que muitos confundem com legume. Vive num mar de rosas segundo seu próprio dito. Se tem contas a pagar ele deixa pro dia de São Nunquinha. Seu santinho predileto pelo qual tem muito afeto. Se não tem horas para dormir ele passa a noite em claro mesmo na escuridão. Se não tem amor por perto ele vai a um puteiro da região. Se tem carência de mulher ele não procura homem. Continua em abstinência de carne. E jejua na quaresma. A espera de dias melhores que um dia vem.
Sem Problemas não tem parança. Só para na mesa do botequim para tomar uma dosinha de pinga para seu dia alegrar. Se não tem ele não fica sem. Problemas ele tira de letra miúda. Já que as grandonas ele não enxerga. Se não tem comida ele não faz questão. Come o que lhe dão. E se não dão ele não come e não comenta a ingratidão recebida. Passa batido e não fala mal daquele que não lhe matou a fome. E ele hoje é tão magricela que nem a balança da conta de lhe medir o peso levinho como pluma na ventania.
Sem Problema pra mim é um exemplo a ser seguido. Não perseguido como muitos pensam.
Já euzinho, com centenas de problemas a fazerem fila no tampo da mesa. Não sei como ficar sem. Agora já tenho a solução contra a dissolução.
Vou trocar o c pelo s. Ao invés de cem problemas vou dizer que estou sem. Melhor assim e não assado…