Antes pensava que adiantava.
Ao chegar à escola atrasado de nada valia dizer à professora que meu atraso se devia ao ônibus que não chegou à hora prevista. E euzinho, que não tinha outra condução senão aquela. Já no ponto do busão a mesma hora ele não chegou. Vim pra escola a pé professorinha. Dai o meu atraso que não foi por culpa minha. Da próxima vez venho rapidinho. Para não me atrasar novamente minha querida fessora.
O tempo se foi velozmente. De outros atrasos me penitencio.
Atrasei ao chegar ao hospital. Tinha uma operação prevista para começar às sete da manhã.
O paciente já estava prontinho na sala de cirurgia. Vestido naquela camisola esquisita. Na cabeça uma toca a encobrir sua calva. Nos pés uma bota de pano já bem usada, furada no calcanhar e rota por cima. Meu atraso foi explicado à enfermeira do centro cirúrgico por um motivo simplesinho. Naqueles tempos idos não tinha o costume de andar pelas próprias pernas peraltas. E meu carro bem velhinho se negou a dar partida e eu tive de partir comigo mesmo. Saindo de casa a hora de sempre. Mas o trajeto de minha casa ao hospital durou mais que o previsto.
Atrasei-me, de outras vezes, na minha mocidade perdida. Àquele encontro com aquela garota a qual tinha como conquista certa. Mas felizmente ela não compareceu a hora exata. Acabou me dando o bolo. Mas esse bolo não era aquele da minha preferência. Já que sempre preferi o de chocolate com cobertura de coco ralado.
Essa expressão de nada adianta mais tem me acompanhado vida afora. Por vezes não me acompanho de ninguém. Como naquelas carreiras loucas de mais de cinquenta quilômetros que fazia há anos atrás. Já percorri distâncias que dariam perfeitamente para chegar de aqui a lua. Medindo as léguas que já corri.
De nada adianta tentar atrasar os ponteiros dos relógios. Eles correm no sentido horário. E não tenho como mudar-lhes o trajeto.
De nada vale chorar sobre o leite derramado. Quando a vaca chuta o balde decerto seria por causa das moscas estarem importunando-as com seus beliscões nas orelhas.
De nada adianta reclamar do preço cobrado nos supermercados. Se quiser preços mais convidativos convide a si mesmo para comprar noutra freguesia onde você já é freguês.
De nada vale chorar quando lágrimas teimam em não sair. Talvez seja um choro sem sentido. Já que o sentimento de perda não foi o bastante para derramar tantas lágrimas assim.
De nada adianta se lembrar com saudades daquela pessoinha que hoje faz parte de um passado que não volta mais. Viva e conviva com o momento presente. Como um presente abençoado por Deus.
De pouco adianta tentar se desvencilhar da saudade que lhe cavouca por dentro. Ela cada vez mais se adentra dentro do seu coração apaixonado.
De nada adianta tentar não sentir mais aquela paixão que se foi. Ela vai continuar entranhada dentro de ti, por mais que a queiras expulsar.
De nada vale não querer mais sentir vontade de retornar à infância. Ela se perdeu na teia de aranha do tempo.
De nada adianta pensar que tudo vai mudar pra melhor. Da mesma maneira que não sabemos o que vai ser do amanhã. Melhor saber que o ontem se foi. O futuro é incerto. E procures fazer o certo antes que o errado te condene.
De nada adianta tentar controlar o ritmo das batidas do seu coração. Elas aceleram de acordo com sua emoção. E desaceleram no descanso. Dai a necessidade de quando em vez parar para descansar.
De nada vale suspirar por aquele amor que se foi. Agora é tarde para voltar ao ninho antigo. Achegue-se ao que tens agora. Aquiete-se no seu canto para não perder o encanto.
De nada adianta tentar se desvencilhar da saudade. Por mais que tentes ela nunca vai te deixar sozinho sem pensar nela.
De nada adianta tentar mudar o curso de um rio. Ele escorre sempre na mesma direção a caminho do mar.
De nada vale sonegar sentimentos. Eles vêm e vão. Da mesma maneira que o vento assopra sem direção.
De nada vale tentar não sentir compaixão. Não se tem domínio dos sentimentos. E se não sentir experimente espetar um prego na palma da sua mão.
Já tentei nada sentir. Tentei controlar sentimentos. Tentei dar um basta na minha sensibilidade. Mas ela voltou mais forte ainda agora que nesses meus muitos anos.