Antes pensava que da cabeça saíam ideias, pensamentos, uma caixinha redonda onde brincam meninos chamados neurônios.
Mas jamais pensava que de nossa caixinha pensante emergissem braços, aqueles dois apêndices que têm as mãos em seu final.
Seria possível dar um abraço apertado, sem as duas mãos como anteparo, partindo de uma pessoinha que nasceu e cresceu sem os dois braços? Sem as duas mãos e dez dedos para com eles coçar as costas daquele abraçado?
Braço e abraço não somente rimam como também são palavras quase gemelares. Na primeira delas falta o a. Já na segunda o a abraça o restante das letras a seguir o b, r, de volta o a, seguido do c cedilhado, e termina em o.
E não me entra na cabeça e não sai, o por que de tanta confusão que acontece em nossa vida, tantas rusgas e desavenças sentidas, tanta descrença em um ser superior, tamanhas desigualdades que infelizmente e não deveriam diferenciar entre ricos e menos aquinhoados. E em nossas cidades tantas desigualdades são vistas. Uns, a maioria esmagadora não tem onde morar e outros abastados moram em palácios e passam momentos de ócio em resorts paradisíacos cujos preços das estadas sobem a estratosfera e não se tornam feras feridas aqueles endinheirados que pagam o preço cobrado e não se queixam do valor.
Foi ontem de tarde o acontecido que me inspirou nesse escrito.
Era ainda cedo pra quem tem o costume, como eu, de acordar com as galinhas que deixam seus ninhos esbaforidas a cantar o nascimento do ovo.
Não sei precisamente a hora, nem o minuto, nem ao menos o segundo.
Deixei aquele clube intimamente ligado ao meu passado, que ainda faz parte do meu presente e espero continuar a fazer do meu futuro. Exercitando-me moderadamente naquela bela academia onde mulheres mais belas ainda são admiradas em sua beleza estonteante.
Caminhando como de costume nem rapidinho demais nem a passos tartarugueantes.
De volta ao prédio onde mora a minha oficina de trabalho aqui nesse sétimo andar.
Uma vez na portaria, não é do meu costume aqui retornar naquela hora, por volta das dezessete, meu amigo porteiro eletricista Renildo me recebeu com um cordial boa tarde doutor Rodarte.
À espera do elevador, não acho certo dar o nome aquela caixinha que sobe e desce e de vez em quando empaca e diz não querer trabalhar mais, pois não lhe pagam salário justo; de eleva a dor, já que na maioria das vezes que aquilo sobe e desce a dor nem sempre desce ou sobe junto. Penso que grande parte das pessoas nem se queixam de dor, embora no meu prédio a dor quase sempre se manifesta nos queixumes dos pacientes que aqui irão se consultar com seu doutor.
Duas pessoinhas, a meu entender seriam mãe e filha, esperavam subir a um andar a fim de uma delas se consultar com um doutor não sabia quem de nós seria.
Puxei prosa com uma delas, a que me pareceu ser a filha daquela outra simpática senhora.
Ambas magricelas que não me pareceram estar em dieta emagrecedora.
A filha a mim me pareceu por demais ansiosa.
Paramos no sexto andar. Um abaixo do meu.
Notei, com minha sensibilidade de médico escritor, com meu olhar aguçado de águia a espreita de abocanhar uma presa fácil no chão, que a senhora mais jovem, a tal aflita e com sérios problemas do sistema nervoso. Pretendia desafogar suas mágoas com alguém que não seria eu.
Movido por meu instinto observador desci com as duas até o consultório de um meu amigo doutor das cabeças desequilibradas, uma especialidade médica de nome Psiquiatria.
Nesse ínterim já havia especulado quem era a consultante, era a filha.
Ju, abreviando seu nome, era uma lavrense que emigrou à terra do Tio Sam anos atrás.
Ali fez certa fortuna e com ela teve o azar de se casar com um americano do norte.
Um indivíduo de cor parda, pessoa de péssima índole, inteligente que usava seus pródigos neurônios pro mal. Pioneiro a usar Inteligência Artificial (hoje a popular IA) no belo estado da Califórnia.
E, uma vez assentados na ante sala do consultório do psiquiatra, a espera de ser atendida, não sei se hora marcada, a irrequieta Ju não se mantinha um segundo sem esfregar suas mãos e a contar sua tragédia americana.
Desde quando embarrigou não teve mais sossego. No pós parto, uma cesariana, sentindo as dores, com seu filhinho nos braços, apanhava do seu ex príncipe negro, que se transformou em seu carrasco.
Ela me mostrou feridas em suas mãos e sinais de enforcamento no pescoço.
A pobre infeliz falava quase em gritos contando sua desagradável história de terror.
E eu a tudo escutava calado tentando amenizar sua dor.
Como tinha de subir mais um andar, dar uma palavrinha com minha querida Zaninha, e voltar ao meu apartamento.
Manifestei a Ju a minha solidariedade e ofereci a ela meu ombro amigo.
Nessa nossa despedida, num átimo de segundos Ju veio ao meu encontro, um tanto mais aliviada e me deu um abraço tão forte que quase perdi as forças poucas que me restavam.
Até no presente momento, ainda pensando naquela pobre moça tão sofrida, não consigo me desvencilhar daquele longo e apertado abraço.