O segredo do Seu Juquinha

Envelhecer…
Palavra de muitas letras e alguns quer dizeres.
Ficar velho, tornar-se obsoleto, ganhar idade nova e ter de assoprar velinhas com medo, já que são tantas as velas, de pôr fogo na sala de sua casa já bem velhinha como seu dono.
Tornar-se uma pessoinha de muitos anos nem sempre é motivo de júbilo que nos mantém felizes transpirando alegria.
Comumente se vêem velhos, aposentados, conferindo suas nádegas num banco de uma pracinha qualquer. Outros idosos lhes fazem companhia relembrando recordações de seus melhores dias. Por vezes eles se esquecem, já que suas memórias claudicam. Velhos, provectos, seniores, idosos, gente que já passou da idade, pessoinhas gentis que têm pelos netos o maior amor e não se queixam de quando os pais deixam aqueles pirralhos capetinhas a sua guarda e elezinhos fazem da gente de gato faminto a procura de um camundongo bem gordo e apto a ser servido como prato principal em nossa mesa farta. Quantas sinonímias desfrutamos nós, os de mais idade.
Dizem até, pessoas menos esclarecidas, que nós velhos, que já deixamos a mocidade e a meninice no caso de sermos meninos, séculos, ou melhor dizendo- anos atrás.
Que quando a gente passa de certa idade estamos na melhor delas.
Melhor uma ova bem redonda e de odor fétido como um ovo podre.
Melhor por quê?
Você já acordou bem cedinho, sendo velho, deixando o sono ressonar de saudades de uma noite bem dormida. Já que tens de levantar de hora em outra hora senão vai empapar seus lençóis de urina fedida a importunar ainda mais que seus roncos a pobre dama que tenta dormir ao seu lado.
Vosmecê, como se fala na roça aquele roceiro educado que trata a luvas de pelica nosso rico idioma. Sendo velho demais já tentou atravessar uma rua movimentada, bem na faixa de pedestres, e ouviu aquele motorista apressado gritar sem seus ouvidos, ainda bem que eles escutam pouco: “cuidado velhote! Se te atropelar não irei me responsabilizar pela conta da funerária e nem pelas diárias do hospital onde vai ser internado para tratar as fraturas nos seus ossos podres e fracos. Mais cuidado ao atravessar a rua. E, da próxima vez traz a sua dentadura que esqueceu dormindo num copo d’água na beirada da sua cama velha e enferrujada como você”.
A velhice tem seus momentos de tranquilidade e repouso. Se você, melhor tratar o velho de senhor, estiver cochilando numa rede a balouçar, se tem um dos seus netinhos te espiando, não durma de touca pois, ele pode, de pura maldade, te empurrar e te jogar no chão duro de cimento e da queda pode quebrar a bacia e nunca mais andar.
Não tenho incertezas ou a menor dúvida.
A velhice não mora nos anos que a gente tem.
Tem gente que fica velho aos menos de trinta. E outros, ditos velhos, sentem-se como crianças aos mais de oitenta.
A idade que a gente tem onde a encontramos? Nos anos que a gente coleciona? Nas rugas que passarinham em nossa face? Em nosso andar trôpego que claudica fazendo-nos cair ao chão? Em nossas cãs que desfilam no alto de nossas cabeças ou somente nas têmporas? Ou naquele olhar vazio contemplando outro vazio que não nos preenchem as ideias? Ou em tudo isso e outros mais?
Seu Juquinha, um senhor de mais de oitenta, chegando aos noventa, anda ereto dispensando cuidadores ou andadores para se locomover.
Ele enviuvou no ano passado. Sofreu com a perda de sua amada Margarida de tamanha beleza de fazer corar de invejas as margaridas mais lindas de um jardim florido.
Em um ano se consolou nos braços consoladores de uma Amélia. Aquela sim era uma mulher de verdade. Que só mentia por pura falsidade dizendo ter apenas trinta quando em verdade já havia deixado os trinta há mais de outros trintões.
Ao lado de sua Amelinha, como a chamava, rejuvenesceu. Retrocedeu dos seus quase noventa a trinta e um cadinho.
Deixou seu suspensório suspenso no cabide.
Mudou seu terninho azul marinho, com riscas de giz branquinho, por uma fatiota moderninha escolhida por sua estilista que não era outra senão a sua nova dona, dona Amélia, que peladona se parecia uma miss gordona tentando fazer dieta sem sucesso.
Passou a usar não mais brilhantina nos seus fartos cabelos e carecou de vez pra sempre pois, lhe disseram que dos carecas elas gostavam mais.
Seu Juquinha mudou da água aguada pra uma cachacinha das melhores.
Quem o viu dantes não acreditava que outro Juquinha ali estava nascendo outro nada igual.
Foi trasanteontem que nos vimos na mesma praça, noutro banco, em outra hora.
Não reconheci o velho amigo de bancos escolares com o qual assentava na carteira do lado.
“Juquinha, meu bom Deus, temos a mesma idade e você parece ter menos vinte que os meus oitenta e um cadinho. O que você tem feito para remoçar tanto? ”
Ele, fazendo dez flexões, requebrando até o chão. Tirando seu bonezinho novinho, mostrou-me a carinha boa e bem nova de sua agora mulher de nome Amélia no seu I phone último tipo.
“Quer mesmo saber? Fiquei um cadiquinho mais novinho por causa de passar a pastar capim novo. Agora, que passei a usar aquela pilulazinha azulada não faço feio na hora H. E repito a dose se ela não se cansar. Você, meu velho amigo da mesma idade minha mais se parece ao meu pai. Muda de vida! Muda de mulher, muda o penteado, se carecer faz plástica! Eu tô desse jeito e lhe dou um conselho de graça. Meu segredo para não envelhecer olha nos meus olhos. Aprendi a olhar a vida de frente que por detrás vem gente nova que pode querer tomar a mulher da gente”.
Deixei meu amigo, o novo Juquinha, pensando no seu segredo.
Mudar de mulher me parece difícil. Mudar meu penteado impossível, pois sou quase careca.
Encarar a vida de frente sem pensar no passado pra mim é indiferente. Me plastificar não tenho ideia. Agora, só de imaginar que um jovenzinho maluquinho tiver a intenção de tocar na minha dama reajo, corto e pico em pedacinhos o peãozinho naniquinho delezinho. E parto pra cima de qualquer um que se atrever a fazer o mesmo…

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