Aonde você ia eu por detrás

Se bem me lembro era bem fácil seguir seus passos.
Meu estimado colega, apenas uns aninhos a mais do que os meus, quando o tive sob minha visão ele morava numa casa enorme um número acima da minha não tão grandiosa como ele sempre foi. Não tão alto como um prédio de muitos andares, de média estatura na altura e de grande dimensão moral.
Quando morávamos num bairro elegante tempos idos, nossas casas se deixam ver nesse dia enlutado em que a nossa cidade se veste em negro. Chuvisca fininho nesse onze de junho, a cidade de Lavras, testemunha de seus préstimos meritórios chora a sua perda.
Bem me lembro de quando éramos vizinhos no bairro Centenário, paredes coladas, muros altos nos dividindo, poucas vezes nos visitamos.
Talvez essa nossa amizade antiga fosse mais reforçada se a gente estreitasse mais vezes nossos abraços. Se pulássemos ambos os muros que dividiam nossos lares. Se convivêssemos horas e dias mais. Essa nossa ausência não se explicaria por falta de afinidade. Acontece que o motivo de não nos encontramos mais vezes tem a explicação convincente de que cada um de nós éramos consumidos pela rotina insana da vida de médicos em busca de ganhar o pão e tentar ajudar a minorar o sofrer das pessoas esquecendo-nos do próprio sofrimento.
Meu colega, militamos em especialidades díspares e aproximadas. Você cuida mais das mulheres e eu daqueles que dizem ser seus donos, mas se enganam.
E como admiro seus passos e atitudes bem pensadas. Sua seriedade no trato com suas pacientes nem sempre pacienciosas naquelas horas doídas do parto. Lembrando do seu sorriso fácil, das suas maneiras cordiais na sua lida médica. Dos seus tantos anos praticando uma medicina de escol. Do seu legado legal deixado aos seus dois fillhos médicos e aos outros dois a mesma fleuma inquebrantável dos vencedores.
Sempre tentei acompanhá-lo não apenas nos endereços vários pra onde o senhor ia e eu ia junto a morar na casa ao lado. Tanto aqui mais perto no bairro supra citado e naqueloutro mais distante cujo nome enseja um jardim cheio de palmeiras.
Bem me recordo daquele ingrato dia quando você, meu preclaro amigo, quando meu cãozinho Willie veio morar na minha casa vizinha a sua. Atormentado com os latidos que meu cãozinho irrequieto lhe importunava o sono. Veio zangado a minha casa a se queixar do meu cãozinho.
Assentamo-nos a duas cadeiras ao redor da minha mesa da sala de jantar. Discutimos irados o que fazer com meu cãozinho inoportuno que um dia acabou viralatando pela cidade atrás de uma cadelinha a quem amava e nunca mais foi visto.
Meu querido doutor de nome de um gás seu homônimo. Esse gás é um elemento químico nobre que tem a mesma nobreza de sua existência terrena.
Esse gás de nome Hélio, incolor, inodoro e não inflamável, famoso por ser mais leve que o ar. Tem ampla utilização na medicina como o senhor deixou sua marca de bom profissional da saúde na vida de cada um daqueles que tiveram a primazia de conhecê-lo.
Agora mesmo soube da notícia triste de sua mudança a outro endereço.
Não vai ser rumo aquele bairro onde moramos lado a lado.
Nem ao menos aquelas casas grandes onde nos dividia muros altos.
Nem a outro endereço naquele lindo condomínio de nome parecido a um jardim onde palmeiras foram plantadas e cresceram bem alto quase tocando o céu.
Estive com você, querido doutor Hélio Haddad, quando por duas vezes te visitei num leito de hospital.
Aonde você ia eu ia por detrás.
Espero reencontrarmo-nos em outra vida e noutro endereço onde no dia de hoje e sempre você vai morar.
Ao olhar pro alto, tentando ver o céu, vejo você lá em cima a praticar uma medicina de alto padrão, cheinha de boas ações. Tão boa e melhor ainda de quando morávamos pertinho em locais próximos como me sinto perto de você, meu amigo e colega doutor de mesmo nome primeiro de um gás volátil que espero vai te ajudar a te levar a sua nova morada nesse céu cinzento que nesse dia onze de junho pranteia a sua morte.

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