Em crianças a gente tinha cada ideia…
Uma das minhas era fazer um trenzinho de ferro feito em papelão.
Muitos achavam que seria um papelão de minha parte essa arte.
“Trem de ferro tem de ser feito de ferro”. Muitos pensavam e não diziam pra não me importunar já que já era um menino espertinho tido como inteligente pela vizinhança.
Eu fazia esse trem de papelão mesmo, não de ferro como seria mais apropriado devido aos trens serem feitos de ferro a rodarem fazendo “piupiu” seguido de outros apitos estridentes estrada de ferro afora sem que eu levasse desaforo pra casa, pois, embora naniquinho, metido a valentão, quando uma briga se anunciava na minha rua eu era o primeiro a correr com medo daquela turma da Costa Pereira, quantos amiguinhos já se foram ao céu deixando uma lacuna de nome saudade por detrás daquelas crianças nada inocentes que em turminhas safadinhas tinham o mau costume de apertar as campainhas das casas e quando o dono aparecia já era tarde demais. Pois a minha turma já havia escafedido numa gritaria a ser ouvida léguas adiante bem distante de onde estávamos.
Outra das minhas ideias ditas de jerico, aquele burrico nanico, era de pôr fogo num monte de lixo a descoberto na encruzilhada da esquina da minha amada Costa Pereira com a antes chamada Rua do Mirante, que hoje deram o nome de Misseno de Pádua. E esse fogaréu fazia um escarcéu danado em quem passava por aquelas bandas e eu olhava tudo aquilo de dentro da caixa d’água que ainda mora no começo daquela rua por onde passo ao cair das tardes.
Quem não conheceu o personagem principal desse meu escrito de hoje cedo, doze de junho dia dos namorados, se morava na minha rua não sabe a pessoinha boazinha que o Marcinho epitetado Piriquitão era.
Ele era filho não primeiro do simpático casal dona Clélia ou seria Cleia, consorciada a um fazendeiro de nome esquecido, pai do meu amigo ainda vivo e bem de saúde, o também dono de fazenda Fábio Carvalho.
Marcinho angariou, naquela ruazinha intimamente ligada por laços não umbilicais ao meu passado, continua fazendo parte do meu presente e espero veementemente continuar fazendo parte dos anos que ainda tenho pela frente.
“Que menino bom e carinhoso, gentil e caridoso, afável e mais que simpático esse tal Marcinho mais conhecido naqueles idos tempos por Piriquitão”.
Diziam todos em coro num só vozeirão ao verem o Marcinho passar distribuindo sorrisos com seu beição estufado e dando bons dias ou boas tardes a todos que com ele cruzassem.
Eu era um desses.
Um dia, era uma sexta feira igual quase a de hoje, só que em anos distintos.
Nem de longe pensava ser médico menos ainda ser escritor descritor. Bom aluno sobremodo em português e não tanto bom em inglês.
Já adepto de uma boa leitura dos livros tantos que meu pai lia e colecionava na sua estante quase tão lotada quanto essa que tenho as minhas costas.
Lia muito sobretudo romances e leituras juvenis como o Pequeno Príncipe (Le Petit Prince ), uma linda novela do aviador aristocrata e escritor francês Antoine de Saint-Exupéry. Nos tempos atuais mais escrevo do que leio.
Quando, naquela rua me encontrava com o Marcinho sempre sorridente e como ele amava um bom dedo de boa prosa. Para estimular aquela jovem criança em bons costumes dizia a ele: “Piriquitão, meu amigo Marcinho. Você gosta de ler? Tem bons livros na sua casa? E na escola, sua professora te estimula a ler”?
Mal sabia ou se sabia que Marcinho Piriquitão seria ou não alfabetizado, já que seu quociente intelectual não era tão alto, ou da altura de um prédio nanico.
Continuava a nossa prosa já comprida na tentativa malograda de inserir cultura literária em sua cabeçona ocada.
“Meu querido amigo Marcinho, omiti o Piriquitão para não causar a ele constrangimento maior que ele se achava. Bons livros são coisas de maior proveito. Eles não só te ajudam a ser uma pessoa melhor como te aculturam bem mais. Faça uso deles na sua rotina tanto caseira quanto numa sala de aula. Ler nos enriquece não somente na riqueza que nos enche os bolsos de dinheiro. Como nos eleva os pensamentos que quase tocam o céu”.
Marcinho a tudo escutava sem dar um pio ou chiado já que ele sofria de asma.
No dia seguinte de novo nos encontramos.
Na mesma Costa Pereira onde morávamos naqueles bons tempos que lá se vão.
Dessa vez foi Marcinho quem puxou conversa e assim se expressou soltando perdigotos por sua boca enorme: “meu amigão Rodarte Paulo, Expedito seguido de um Abreu no final. Você sabe de uma coisa boa? Ontem dormi com meu travesseiro recheado de livros de boas histórias. Um deles contava a historinha de Chapeuzinho Vermelho andando na floresta seguida pelo faminto Lobo Mau. Durante o meu soninho gostoso, antes que o lobo malvado comesse a ingênua menininha de chapeuzinho vermelho acabei entrando na história e salvei aquela linda menina dos dentões pontudos do lobão malvado. Hoje de manhãzinha, já desperto e com a cabeça cheinha de boas ideias, passei a crer que, quando a gente dorme sobre um monte de livros a gente pode entrar na história e quem sabe seremos no futuro escritores renomeados como um tal doutor Rodarte de Abreu, como você vai ser num futuro sem dia certo pra acontecer”.
E num é que depois daquelas ideias estapafúrdias do meu amigo Marcinho Piriquitão passei a dormir com meu travesseiro cheio de livros muitos deles de minha autoria?