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Frente e verso, de trás pra frente, corra que vem gente, cara metade, tampa da panela, verso e reverso, prosa e verso, a cada ação corresponde uma reação, samba canção, de trás e de frente, lado a lado, de baixo e de cima, subindo ou descendo, ao revés, ou pelo convés, proa e popa, bunda e pelve, esposa e amante, diletante, ou por obrigação, samba canção e música caipira, galinha de granja e galinha da roça, levando a sério ou fazendo troça, assim caminha a humanidade, cada um com sua cara metade, fazendo o que a vontade indica. Assim caminhamos nós, nos perdemos nas encruzilhadas da vida, vestimos a roupa que melhor nos cabe. Uns vestem chita. Em outros lhes fica bem a seda. Uns são malandros assumidos, dependurando no varal os trapos encolhidos, sujeitos a chuvas e trovoadas. Outros só vestem roupas de griffe. E envergam aquelas calças esfarrapadas, furadas no joelho, como se fossem rotas no arame farpado. Uns nascem para serem felizes. E outros se descobrem a cara da infelicidade, e tudo lhes passa errado. Tudo depende da sorte, madrasta ou princesa consorte. Uns descobrem que sabem fazer bem feita a ciência da computação. Outros só lhes restam a opinião, e saem grandes jornalistas. Uns enveredam pelas construções, e acabam no canteiro de obras, até que um barranco lhes abrevie a vida. Outros mais espertos são ótimos advogados. E são premiados com a desgraça dos terceiros. Quartos nascem para ensinar, e se tornam formadores de pessoas. Eu, no meu caso, me descobri médico, para ser mais exato, médico das vias urinárias. Com a terminação na dura lida da próstata, que entope a urina, quando se fica idoso. Tempos me seduziram. A medicina me corteja por mais de 33 anos. Agora, em 2007, faço 30 de Urologia, o pioneiro na cidade onde moro, e adoro. Foram muitos acertos. Outros enganos, não levianos. Os insucessos posso dizer que foram poucos, mas aconteceram. Não foi por falta de vontade. Foi por incapacidade, ou inexperiência, a princípio. Sempre trabalhei só. Operando com um excelente enfermeiro, que me ensinou não a Urologia, e sim a manter a cabeça fresca frente às horas difíceis. Agora, 30 anos de Urologia, aprendi que seria melhor se me unisse a gente mais jovem, com menos experiência, mas com maior pique. Nunca é tarde para ser feliz. Assim o quis, e não me arrependo. Talvez se fosse menos presunçoso, menos desconfiado, menos intempestivo, teria ficado mais rico. Mas o que ganhei foi suficiente para criar os filhos, que ainda não andam sós, mas, com certeza, o futuro lhes dará cobertura, e serão felizes como eu sou, à minha maneira. Depois de muitos anos de Urologia descobri minha outra face. Outra cara, a tampa da panela. Meu outro verso, talvez reverso. Descobri uma cara nova, mais afável, mais sensível. Mais atenta e observadora. Mais inquiridora, mais cobradora. Acabei descobrindo um terceiro olho, que não me deixa andar nas ruas sem me inteirar do entorno. Isso me faz sofrer, pois não fico sem escrever um dia que seja, pois as crônicas me são essenciais. Alguém disse que sou obsessivo, quase compulsivo. Tudo me faz levar pelo caminho das letras, adoráveis amantes, das horas certas e incertas. Um passarinho que pia me leva a contar sua história. Com uma maritaca que acorda, acontece o mesmo. Igual com as perdas e danos, que de quando em vez acontecem. A crônica passou a ser uma amante, a Urologia, a esposa. A inspiração agora é essencial, como o ar que respiro.Depois dos enta acumulei mais um desvario. Ando que nem noticia ruim. Pois as boas nem são notadas. Publico livros nem me lixando se eles são lidos, muito menos me dão lucro ou prejuízo. Uma coisa é certa. A urologia, nestes trinta anos de estrada, nunca me retribuiu tanto quanto a literatura. Ninguém me pára na rua para agradecer um caso médico bem resolvido. Com as crônicas ocorre o reverso, da moeda. Depois de trinta anos de Urologia não consigo viver sem a escrita, nem a leitura. Nem sem a Urologia, uma paixão mais antiga. Elas me são parte do meu eu. Profundamente arraigadas ao meu cerne. Por isso digo: tenho duas caras, duas faces, frente e verso. Felizmente. Alguém me diz, em ocasiões distintas, que sou um poeta. Livre de mim. Sou médico urologista, e de quebra cronista. Tenho dupla militância, duas faces, duas caras, uma esposa e uma amante, que se dão muito bem. Ainda bem... |
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