A felicidade deve ser buscada a duras penas, mesmo que no alto do Everest, onde as neves são eternas. Mas, contrariando a procura, muitas vezes não a encontramos, pois esquecemo-nos de procurar no lugar mais improvável. Na simplicidade das coisas, na quietude de algum lugar, onde o vento aponta, no remanso de um rio, onde as águas encontram o mar.
Ele era um solitário. Sempre viveu para si mesmo, perdido na obscuridade dalma. Desde filhotinho a mãe o deixava sozinho, cuidando dos irmãos mais novinhos, pois, caso ele fosse alimentado antes, nada sobraria para os outros.
Foi quando ele se descobriu um deprimido. Evitava o contato com semelhantes, pois ele se achava um dessemelhante. Não que fosse mais feio que os irmãos. Até que ele cantava afinadinho.
A sua vida marchava insossa, e nada o fazia exibir o siso.
Assim passavam os dias. Entre dias frios e dias frios. O sol não era companhia amistosa para o nosso amiguinho.
O seu apetite era um assanhamento. Era um glutão assumido. Quando não lhe punham uma maçã perto da boca, quando não deixavam um jiló à queima roupa, ele piava de fome. Numa coisa todos concordavam. Ele era um asseado de prontidão. Tomava todo santo dia um banho de imersão, de onde voava água com sofreguidão. Quem o via ao despertar, pois era fácil de identificar o seu “acordamento”, pensava que ele dormia de toca. Pois sempre trazia no corpinho em forma toda a belezura de uma barriga ao contrário. Os bracinhos curtinhos eram empenados, de tantas penas verdes claras. No alto da cabeça um lindo topetinho branco se parecia um quepe do guarda.
Um dia o seu dono foi tratar da sua fome. E da sua sede. Como era manhã bem cedo, com os olhos ainda nauseabundos pela noite mal dormida, o dono esqueceu-se de um pequeno detalhe. Deixou a porta da janela aberta.
À hora do almoço, quando seu dono fez uma visita ao amigo cantor, viu que o seu amigo Trinca Ferro estava ainda no poleiro. Sem ao menos um esboço de que iria fugir da gaiola.
Ao vê-lo ainda prisioneiro de si mesmo, pensei, com meus botões: ele perdeu a chance de ser feliz. Melhor pra mim. Pior, pra ele...