Ainda bem que sou mineiro, pena que aqui não exista o Rio de Janeiro, com seu Pão de Açúcar artilheiro, mas, por ser mineiro, berço da simplicidade e da solidariedade, vivo no céu, entre morros altaneiros, respirando um clima de sempre primavera, estação aquela de quando os ipês fazem strip tease, se bem que longe do mar, mas perto o bastante das mulheres mais formosas do país, sobretudo as de Belo Horizonte, talvez pela temperatura ideal, sem sol a rodo, sem calor em excesso, com aquela serra do Curral, a enjaular as mais bonitas mulheres do país. Sou mineiro com orgulho de elefante, não que eu seja gordo o bastante, mas me ufano por ser mineiro, do interior, então, melhor não há. Sou mineiro da gema, mineirim, meio que poeta da roça, que adora fazer troça da vaca que sente o cio na pele, e se serve do boi para acabar com o tesão. Sou mineiro de boa cepa, que adora o uai, o trem bão, a moda de viola em noite de lua cheia, tendo o pôr do sol como imaginação. Sou mineiro do forró, que dança com morena fogosa, aquela das sardas genuínas, que foi chamada de onça pintada. Sou mineiro do interior, aquele caboclo xonado, que vive apaixonado, por mulher, quentão e pipoca quentinha, acompanhada de bolo de milho. Sou mineiro, que ouve o causo do paulista, do gaúcho e do carioca, esperando a vez de dar palpite, que sempre vence a gabolice, dos colegas cheios de ufanice. Sou mineiro, cobra criada, que quando diz que vence uma corrida, pode saber que ele vence, pois anda sempre de carro veloz. Sou mineiro do interior, daquele interiorzão bem cafona, onde se anda de chita, mas se sabe quem é Armani. Sou mineiro, não importa se da zona da mata, ou do centro, ou do sul, ou até do norte árido, primo rico do nordeste. Sou mineiro daqui mesmo, gente em quem se pode confiar. Sou mineiro que não conta lorota, dizendo a verdade- que aqui é bom demais. Sou mineiro, não catireiro, pessoa de língua contida, para quem a palavra empenhada vale mais que mil notas promissórias. Sou mineiro, arguto observador, que fica amuado a seu canto, a ver as vacas saindo depois da ordenha, docemente saudosas do seu bezerro, que ficou apartado do seu coração de mãe vaca. Sou mineiro, com orgulho, daquele que demonstra sabedoria por cada tostão furado do corpo, um corpinho esperto que nem nós mesmos.
Uma de mineiro que me contaram, quando ainda não havia saído de Minas, foi esta:
Três paulistas contavam vantagem pro mineirinho.
O primeiro: “eu tenho tanto dinheiro que vou comprar o Citibank!”
O segundo: “eu sou tão rico, que comprarei a Fiat Automóveis”!
O terceiro: “eu sou um magnata... vou comprar a Usiminas”.
E os três ficaram esperando a conclusão do “mineirin”.
Aquele, recostado nos calcanhares, mascando um paiero apagado, pensando longe do trio, saiu-se com esta: “eu, num vendo não pro ceis. Prefiro vender o Pão de Açúcar”...