Um dia alguém disse, montado na melhor das intenções: “vou demitir o gerúndio”. Mal sabia que ele que, nos dias de hoje a tal demissão está muito mais perto do que se imagina, pois, quando um trabalhador passa do ponto, e ameaça ganhar muito, dois novatos são admitidos, os dois com um salário que somados não perfazem o salário do antigo.
A vida é cheia de admissões e demissões. Uns se aposentam, e outros, de olho na vaga recém criada, logo se lançam candidatos. E acabam por ocuparem o assento do velho funcionário, que fica no banco da praça, esperando a morte. Alguém disse, alguém que não se acostumou à aposentadoria: “o ócio é o começo do fim”. Meu pai, quando assim o disse, acabou ficando com Alzheimer, e morreu pensando que era ainda ativo.
A vida é uma sucessão de sonhos e desventuras.
Nascemos dando trabalho. Morremos, não sem antes dar trabalho. E, no meio do caminho ainda damos trabalho.
Quando jovens sofremos para vencer o vestibular. Perdemos noites de sono, desembarrigamos, criamos olheiras, falamos besteira, blasfemamos, culpamos o nosso insucesso pela falta de estudos. Mas, um dia acabamos por transpor os umbrais da faculdade, doce realidade, com a qual todos devaneiam.
Ficamos debruçados nos bancos da mesma faculdade, por cinco, seis anos, ou mais. Anos que se encheram de enganos, amores apareceram, sonhos se descabelaram.
E depois de muito queimar pestanas, de muitas noites insones, acabamos nos formando.
Lindos dias aqueles, quando muitas mocinhas casadoiras ficaram desenganadas, esperando que o bacharel fosse delas. No entanto, ledo engano. Outra mocinha foi premiada e levou o grande prêmio.
Mas, como nem tudo é perfeito, como o amor perfeito que cresce nos jardins, um dia o pobre jovem descobre, de sopetão, que o diploma nem sempre é seu degrau, que o conduz a melhores dias.
Depois de muitos anos, depois de muitos desenganos, depois de anos levianos, o jovem recebe a láurea de bacharel.
É uma cerimônia cansativa. Que perdeu a imponência, por culpa da falta de compostura dos colegas, que levam buzinas, cornetas, torcidas, ao grande dia.
No dia seguinte o mesmo jovem, ainda sob o torpor da grande noite, mareado com alguns uísques a mais, acorda sentindo sob os pés o vazio.
Ele afinal está diplomado. O canudo lhe queima as mãos. As responsabilidades mudaram de time. Nunca mais ele terá a protegê-lo a mesada do pai. O crédito educativo precisa ser quitado. As contas não esperam. Pois a conta da luz carece de sair da gaveta.
Tudo em volta cheira a pesadelo. Ele deixou de ser estudante, para ser um reles trabalhador. E tem de selar o cavalo para desempacar a vida irresponsável.
Um dia ele se descobre, um diplomado em desemprego...