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• 22/09/2009
RESSENTIMENTO
Qualquer um, e não precisa ser diferente, já experimentou na boca o gosto amargo do tal ressentimento. É um sentimento atroz. Que fica entalado no peito, quase como um naco de carne fibrenta que não desceu pelo esôfago, e nos fez engasgar. Aí então se faz preciso ir ao banheiro, enfiar o dedo na garganta, para a ele regurgitar. Só então a respiração normaliza, e a pessoa volta a poder conversar.
Eu mesmo fui vítima de ressentimento. E os entalos por vezes aconteciam, durante o almoço ou jantar. E, depois dos entalos resolvidos, ficava uma sensação esquisita, de que algo passou errado, e não deixou saudades.
Ninguém se vê livre dos tais ressentimentos de hora pra outra. Eles acontecem quando alguém nos aprontou alguma, uma coisinha miúda, ou algo que nos fez engasgar a seco. Da mesma forma os ressentimentos são devidos a uma traição, que para nós foi cruel, mas, examinando sob outro enfoque, não foi tanto assim como o nosso julgar dedurou.
Mal de amor pode aparecer no peito como ressentimento maior. Mas, toda atitude desse tipo deve ser examinada a olho frio, para ver de quem foi a culpa, se nossa, ou da pessoa do outro lado da discórdia.
A vida não se conta pelo número de vezes que você respirou. E sim pelos momentos que você deixou a respiração contida dentro do peito. Assim como os ressentimentos não devem ser guardados como não se deve guardar a comida na gaveta do armário da cozinha. Assim como o amor não deve ficar enlatado, como acontece à sardinha em lata.
Analisando a palavra título sob olhares exigentes, re-sentimento – sentir novamente, sentir infinitamente, para alguns. Um autor, de quem não sei o número da carteira de identidade, afirmou que guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que outra pessoa morra. Não se precisa ser esperto para deduzir que quem irá morrer será o próprio, que assim pensou, e destilou todo seu veneno em direção a outrem.
Eu mesmo, de vez em vez, guardava ressentimentos. Mas, com a vida passando rápida, aprendi que quem leva o pior sou eu mesmo. Refém de um cutucão, que me alertou as entranhas, consegui esquecer os ressentimentos no baú de guardados, tapando a tampa do tal baú, e oferecendo todo o conteúdo aos ratos.
Desde aí sou feliz. E vivo o momento. Os tais momentos do ressentimento os afugentei de imediato. E aboli qualquer coisa assim.
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