Dizem que o amor é eterno enquanto dure. O mesmo não acontece às cartas de amor, que estão com os dias contados, tristemente acabrunhadas, amarelecidas as que ainda persistem, e de férias as próximas, que foram olvidadas, jogadas a um canto da gaveta, submersas às traças e carunchos, apodrecendo sem ninguém a condoer-lhes do futuro. Cartas de amor já tiveram seus dias de glamour. De repente, fazendo-lhes frente, chegaram os computadores, terríveis contendores, adversários ferrenhos, e através deles a Internet, esse mal que vicia, haja vista o Orkut, e jogaram uma pá de cal nas pobres cartinhas apaixonadas, muitas que guardam segredos profundos, que escondem corações tristonhos e sedentos de amor. Cartas de amor são um atestado de amor. Que fica gravado num pedaço de papel, naquelas mal traçadas linhas, de que falam os poetas de cordel. Cartas de amor escondem amores antigos, impossíveis e sofridos, tal como o de Romeu e Julieta. Cartas de amor escondem dores e saudades, atos de leviandade, que mostraram em linhas bonitas toda a beleza da flor, ou do amor que os levou a cama, e depois nada mais restou. Cartas de amor deveriam ficar perenizadas em obeliscos e museus, pois elas retratam momentos de rara intimidade, e outros que deixaram marcas profundas, que arranharam a carne, e a fizeram sangrar. Cartas de amor se superam, e são atestados eloqüentes e envolventes de paixões que incendiaram, levaram os amantes a atos insanos, e talvez, depois daquela carta, nada mais restaram senão cinzas, molhadas pela chuva que caiu, e não deixou pedra sobre pedra. Cartas de amor foram esquecidas, assim como os correios correm o risco de serem sepultados. Mas elas marcaram época como marcou o Viagra, aquela pílula azul que promete alavancar defunto, e infelizmente hoje é utilizada sem a devida necessidade, com fins recreativos somente. Cartas de amor são companheiras, muitas dizem besteiras, e nem serão lembradas as suas palavras, que, ao instante em que foram escritas mostraram um flash, e hoje nada mais serão do que um blefe. Cartas de amor foram escritas na solidão de um quarto, debruçadas em lágrimas de ausência, e foram recebidas sem dó ou clemência, por quem ensejou aquelas lágrimas descritas nas cartas. Cartas de amor são muitas vezes despudoradas, sem cor, mas de muito amor. Cartas de amor podem ser rasgadas, quando o amor passa. Mas elas foram escritas levando emoções, ou razões, que, por bem ou mal, perderam a razão, quando quem a recebeu a ela rasga.
Um dia me perguntaram, depois do recém acidente do metrô de São Paulo, quando muitas pessoas tiveram de desocupar o imóvel às pressas, levando tão somente alguns guardados, o que optaria por levar, já que pouca coisa me caberia nas mãos? Não levaria a galinha de estimação, aquela que bota ovo amarelinho, o canarinho cantador, que canta com emoção, ou o papagaio palrador, que conta piada de mulher pelada, ou o cãozinho vira-latas, que foi adotado como filho que de certa forma o é, ou a mulher que dorme lá em casa, ou a sogra que de quando em vez aparece. Salvaria do desterro algumas roupas branquinhas, as de uso diário; salvaria a escova de dente, o tênis andarilho, a calça de ir à missa, o livro por mim escrito, e não deixaria jamais, para se afogar na enchente, ou se sujar nos destroços do desabamento, um maço que jaz esquecido no criado mudo, recheado de tanto passado. Levaria, num átimo, para me acompanhar até o fim dos meus dias, uma lembrança singela de eu ela. Levaria as minhas cartas de amor, assinadas com o nome dela...