SEQUELAS DE UM DOMINGO...
Quem ainda não se viu com dor de dente, com um lado da bochecha toda inchada, depois de se ausentar da cadeira do dentista, bem sabe o que seja uma seqüela. Ou ainda, na mesma demão, quem ainda não se viu aos prantos, depois de uma separação, com o coração destroçado, com os olhos marejados de orvalho, só então se descobre a dor de uma seqüela, aquela coisa que dói, como dói uma pontada de ciúme. Ou, melhor ainda, por definição, seqüela está intimamente inserida nos compêndios da medicina, quando um paciente fica manco, depois de uma operação mal sucedida. Seqüela se trata de uma complicação. Que pode nos deixar com o tempo, ou ficar de plantão pelo resto da vida, a nos lembrar daquele dia infeliz, quando perdemos a alegria.
Tem gente que resiste às sequelas, mas, a outros ela derruba, como o caminhão desgovernado atropela o poste, que não lhe saiu do caminho num dia de chuva forte.
Dizem até que aos fracos a seqüela abate, mas pouco acontece aos fortes, aos bravos, aos estóicos e resignados.
Domingo, aos meus olhos acostumados, não é o melhor dos dias. Nele pouco se pode fazer, a não ser esperar a segunda, dia que deveria ser riscado do calendário.
A televisão não me seduz. O sofá reclama dos meus fundilhos. O computador me pede folga. A rua pouco me vê.
Este domingo foi particularmente enjoado. Choveu como um dilúvio. O sol não mostrou a cara, tudo ficou escuro. Tentei andar sob a chuva. Numa tentativa de vencer o marasmo. Desisti ao primeiro pingo, não me restou alternativa, a não ser engolir o nada.
A noite foi mais um martírio. Sem sono, sem a menor vontade.
Acordei com gosto de segunda, nem um banho frio me fez aliviado.
Saí de casa por volta das sete, meu corpo queria continuar na cama. Abri a janela, a ver se encontrava um pouco de claridade. Deixei a casa em direção ao trabalho. Um ventinho me recebeu com seu hálito fresco.
Desci a rua com o corpo moído, seqüela de uma noite em claro. Talvez um cafezinho amigo me ajudasse a fazer as pazes comigo mesmo.
Como de sempre passo por uma praça amiga. Ela estava acordando justo naquela hora.
Galhos secos, copos de plástico, todo tipo de imundície contaminava o entorno. Acontece, que no domingo, uma turba inamistosa havia ali deixado rastros.
Dava pena da velha praça. Garis esforçados tentavam apaziguar o espaço. Era como limpar uma praça de guerra, depois de um combate de morte.
Durante uns poucos minutos olhei para as margaridas. Elas, tristes como o dia, ficaram da cor da terra. O verde da grama também foi conspurcado. As alamedas da praça se pareciam a um aterro sanitário.
Não é de agora a minha repulsa aos domingos. Pobre dia infeliz, dia de festa na praça. A chuva até que tentou apaziguar os ânimos. Mas só contribuiu para poluir mais ainda, a minha alma cansada.
Sequelas existem em nossa vida. Algumas mais graves. Outras mais camaradas.
Ao passar por aquela praça amiga, pensei no domingo. Dia sem graça.
Ele deixou naquele ambiente tão terno, sequelas da sua graça...