Um dia desses peguei carona na máquina do tempo e me transportei ao passado. Nem foi preciso ir longe. Uns cinqüenta anos me foram o bastante. Na ocasião o computador ainda nem tinha nascido, e apenas ela servia como escrevente.
O quarto escritório estava como antigamente. Paredes pintadas de branco, estante armário entulhada de livros velhos, carcomidos pelas traças, uma mesa com quatro gavetas, uma velha cadeira de espaldar alto, a foto do antigo proprietário, e num canto, esquecida pelas lembranças distantes, a velha Facit descansava sem um trato que fosse. A visão da velha máquina de escrever despertou em mim um flash-back. De repente, sem saber o por quê, me vi aos vinte e poucos janeiros, escutando as notas do teclado da velha Facit, que na época soavam como música aos meus ouvidos.
Era meu pai que escrevia. Dedos ágeis e confiáveis, cabeça compenetrada no trabalho importante. De o seu dedilhar constante nasciam páginas e mais páginas, petições inspiradas, algumas com incorreções, mas nada que um bom corretivo não conseguisse apagar. Horas e horas ele passava a confabular com a velha máquina, quase pareciam amantes dedicados. Ele a tratava com carinho, zeloso da sua parceria cidadã e amistosa. Tal a voracidade com que ele a ela recorria, que a velha máquina de escrever aprendeu a trabalhar sozinha. Era comum, nas noites de lua, escutar o velho teclado se movimentar, sem que ninguém estivesse por detrás.
Eu, ainda moço, não havia tido a curiosidade de experimentar a velha Facit. Temeroso que ela na sua rabugice de velha senhora não aceitasse a inexperiência dos mais jovens mantinha-me a distância segura. Mas nada impedia que admirasse o seu trabalho criterioso, guiado pelas mãos de alguém especial. E a velha máquina de escrever continuava desafiando a idade, as novidades, o assédio do computador que mostrava as caras. Meu pai não a trocava por nenhuma modernidade, e continuava fiel ao seu teclado macio, barulhento, com as letras borradas quando a fita corria cansada pelas folhas de papel. Muitas vezes o cesto de lixo ficava entulhado de folhas sujas, borradas, amassadas. A velha Facit não permitia erros, e se eles aconteciam com muita freqüência a folha de papel era quem pagava o pato.
Centenas, milhares de documentos importantes, páginas inspiradas, saíram das suas zelosas mãos. E a velha máquina de escrever não se cansava nunca. Nem mesmo a ferrugem, nestes anos todos de escrever constante, ousava se aproximar dos seus domínios. Perdi a conta das horas de trabalho. Se possível fosse anotar todas elas, a aposentadoria estaria há muito garantida. Mas a velha máquina de escrever desafiava a idade, e sempre que requisitada não se fazia de rogada. Os computadores chegaram. Muitas das suas irmãs viraram sucata, e foram enterradas no ferro-velho. Mas a velha Facit continuava a desafiar o tempo, e as modernidades.
Um dia o velho operador do seu teclado, após anos e anos de trabalho uníssono e afinado, resolveu descansar. Ele a abandonou não por desprezo, já que odiava os computadores, e sim por que alguém lá do alto dele precisou. Com certeza, na onipotência Divina, o trabalho do Céu precisava de um datilógrafo competente, e ele não se recusou ao apelo, pois do que mais gostava era de trabalhar. E a velha Facit foi entregue à própria sorte, abandonada a um canto, em cima da mesma mesa, do lado da estante entulhada de livros velhos, tendo a fotografia do velho companheiro a velar por ela.
Um dia tive a coragem e a saudade de penetrar no mundo da velha máquina de escrever. Ela ainda estava no mesmo lugar, ele não. Um aperto no coração subiu à garganta, tive vontade de acariciar as suas teclas, mas não tive coragem. A velha Facit merece descanso, naquele quarto de tantas lembranças, do tempo em que fui criança, saudosas recordações do meu pai...