Somos ou não descendentes do macaco? Eles nos antecedem, ou sucedem, na escala evolutiva? Sabe-se que aqueles símios andam nas quatro patas, de quando em vez em duas, fazendo uma misencene folclórica e divertida. O fato é que dizem que somos descendentes dos macacos. Mas, caso for provado que somos mais evoluídos, não se deixa entender que somos melhores que eles.
Aquele senhor, na altura, ou melhor, baixeza, dos seus oitenta e três anos, vividos com a mão na enxada, nunca conseguiu andar ereto. Ele nasceu com a coluna encurvada sobre ela própria, conferindo ao mesmo um aspecto de tartaruga manca.
O seu Venerando nasceu na zona rural, onde Judas perdeu as botas. Nasceu como um macaquinho, todo encarquilhado sobre ele mesmo. Ainda menino aprendeu a empunhar a enxada. Tornou-se um enxadachim de primeira. Um “foiceiro” de segunda. O trabalho nunca a ele meteu medo. A inércia, sim, o atemorizava. Ele, quando na hora do almoço, cuidava de carpir a horta de couve, onde escorria uma aguinha minguada. Ali colhia lindas verduras, quiabo, a sua especialidade. Tudo com o bom humor inerente a quem tudo tem na vida - coluna ereta, peito empinado, pernas de bom quilate. Ele ainda criava umas galinhas caipiras, cujos ovos não comia, pois deixava para a lontra furta-ovos.
Ele vivia só. Não se casou por não encontrar quem quisesse amparar tal deformidade que ele trazia nas costas. E até que ele não era tão feio que metesse medo a qualquer cara metade. Juntou um carro de milho, dez sacas de café em coco, esterco ele vendia para engrossar a renda do leitinho miúdo. E, ao sabor dos seus oitenta e três janeiros, ele ficou para titio-avô. Quem cuidava das suas mazelas era uma sobrinha que vivia na cidade perto. E um primo de quem não tinha boas lembranças.
Ele vivia de teimoso. E ria sem ter motivo. Com uma coluna “caluniadora” como aquela, qualquer um marmanjo teria dado um tiro no ouvido. Mas o seu Venerando, aos oitenta e três anos, “magramente” vividos, recusava descansar. Ainda empunhava a enxada, que metia medo ao mato que ali grassava. Colhia uma roça de milho, que sempre era a melhor do pedaço. As suas vaquinhas tatu-com-cobra eram mesquinhas de leite, e luzidias de pelagem.
Um dia o seu Venerando apareceu à consulta, com a urina entupida. Ele havia se operado da próstata, há anos atrás. Não foi fácil estancar-lhe o pepino. Depois do ato feito, que doeu pra chuchu, o estóico seu Venerando me deu uma lição de vida. Ele me ensinou que, mesmo andando de quatro, com a coluna morgada para onde a terra aponta, ele tem muito mais saúde e disposição que muita gente sadia, que anda como homem anda.
O seu Venerando deve ser um nosso ancestral não simiesco. Muito mais evoluído. E equilibrado. Ele pode vergar-se como o seixo tocado pelo vento. Mas não se quebra, jamais...