Nunca tanto se falou sobre a chuva, aliás, a falta que ela faz, nessa primavera ressequida, que levanta poeira, faz o gado emagrecer, provoca redemoinhos ao longe, deixa o capim esmaecido, que pode ser feito cinzas, à primeira chama que nele cai.
Nunca tanto se pediu para que a chuva caia, antes que o mal cresça. E da roça engrossem a legião dos sem terra aqueles caboclos que colecionam calos, dores no corpo, de tanto brandir a enxada. São os enxadachins da vida, gente sofrida, que sabe ler nas estrelas quando deve cair água, e, se não cai, eles carpem assim mesmo, montados na fé própria dos seus corações rurícolas. São eles as pessoas mais confiáveis que minhas mãos já apertaram. De quando em vez eles regateiam a entrega das mãos, por não se sentirem limpos o suficiente para estreitar as nossas mãos macias da cidade. Mal sabem eles que são as nossas mãos que podem conspurcar as deles. Mãos que contam dinheiro, que ludibriam, que fogem às carreiras da palavra empenhada.
Sei que os tempos estão complicados. Antes, muito antes, antes mesmo que aquela serra que lá da planura do horizonte nos avista, a nossa profissão ensejava respeito. Nós, de branco, quando ainda vestíamos jalecos longos, por baixo uma camisa engomada, abotoando-nos o pescoço uma vistosa gravata, calças em linho de boa cepa. E quando éramos recebidos nas casas dos pacientes, entrávamos mercê de reverências, até sob o aplauso de alguns. E, quando nos deixavam sair, o fazíamos deixando saudades. Pois, lá, deitada naquele leito, ficava uma pessoa que poderia morrer, mas, se não morria, pelo menos podia dizer que fora visitada pelo médico.
Hoje, águas passadas, os esculápios se transformaram em médicos. Não foi uma transformação tão apetitosa quanto quando a crisálida vira borboleta. Foi uma transformação ao revés, de casulo em bicho da seda.
Não imagino de quem tenha sido a culpa, da tal falta de respeito à profissão de doutor. Se foi nossa, das Escolas de Medicina, que despejam pelo esgoto milhares de profissionais a cada ano, muitos nem tão bem forjados como o aço de Toledo, ou reféns de um mercado mais e mais exigente, que muitas vezes não sabe eleger o melhor, e titubeia entre o mais carismático, o mais político, ou aquele que constrói clínicas paradisíacas, onde só falta chover no molhado.
Estamos em outubro de 2007, precisamente no dia dezoito. Até ontem uma seca evidente transformava as estradas em poeira, os campos em deserto, as minas exauridas em pântanos descobertos. Tudo ao derredor fedia à carniça. A fome ameaçava lastrar sem rumo, em direção a cidade perto. Uma vez, em visita a uma feira de verduras, assisti pasmo a uma senhora com olhos mareados de lágrimas a reclamar que nunca dantes as suas couves morreram por falta dágua. As minas estavam de boca aberta, pedindo água.
Hoje, dezoito de outubro, dia do médico. Do mesmo profissional de dantes, só que não mais “enjalecado”, ou que usava visitar a família, onde era esperado como a chuva que tarda, mas não falha.
De tanto pensar na chuva, de tanto tentar até mesmo fazer a dança da chuva, para em boa hora socorrer o campo, para tornar a poeira em barro, hoje, dia do médico, dezoito de outubro, amanheceu com pingos dágua a afagarem a janela.
Foi quando emergiu das minhas idéias matusquelas o seguinte desvario: quem sabe o médico ainda pode fazer chover???