As luas têm fases. Assim como a mulher fica no cio, e experimenta, durante o mês, períodos regulatórios, que são medidos pela menstruação. Assim a lua fica de saco cheio. Ela mingua, fica a engordar a barriga, novinha em folha, e então decresce outra vez, assim quando como acontece a mulher que despeja a criança. As fases da lua regulam muita coisa. A safra do agricultor, as marés e pragas da lavoura, a fertilidade da fêmea, e até o cantar dos passarinhos, que cantam melhor quando são livres e felizes. Não importa que lua é. A lua é morada do amor. Que embala as noites enluaradas. Que inspira o trovador. Que acende vela ao casal de enamorados. Que, sob a desculpa da luz da lua, rouba um beijo do seu amor.
A lua é quase igual rapadura. Doce, na medida certa. Dura, quando deve ser dura. Mas toda lua é uma mãe. Pois nunca vi a lua de cara feia, ou zangada com a arte do filho traquinas.
Quem não se inspirou no que diz a lua, não se inspira com nada mais. Quando vemos, numa noite escura, perdido em um céu sem nuvens, aquele clarão gigante, que parece um enorme vaga-lume que não pisca, e nos fita de olhos esbugalhados, podemos inclusive sonhar. Pena que depois de vermos uma lua cheia a brilhar, no alto do firmamento, acompanhado por um chão de estrelas, incontáveis meninas moças, que são damas de companhia da lua mãe.
Dizem que a luz da lua é uma luz gerada por outra luz. Mais forte, mais durável, mais quente. Da quentura do inferno incandescente. Da quentura do amor que bafeja na cara de duas pessoas.
Eu adoro a luz da lua. Adoro o cavalgar das estrelas. Que, lá do alto, riem de nós, sem aquela risada estridente, de gente que não sabe sorrir gentilmente.
Eu adoro a luz da lua. Pena que não se possa tocá-la, como a criança afaga seu cachorro. Adoro a luz da lua. Pois ela é uma luz fria. Que nos acalma. Alumia. Nos faz pensar em seduzi-la. Sem ser possível levá-la pra cama. Ah! Se eu pudesse. E meu dinheiro desse. Faria a corte à lua. Não importa se ela é novinha, se é minguante. Se cheia ou desbarrigada. Pois que eu saiba lua não fica grávida. Pois ela nasceu para ser mãe estéril. Sem útero. Sem cérebro.
Hoje saí de casa antes dela acordar. Estava uma noite linda. Sem ser despudoradamente fria. Ou cálida. Olhando pra cima encantei-me com o que vi. Não estava desmesuradamente claro. Nem escuro como aprecia o vaga-lume. Estava na medida exata para admirar. Os contornos inexatos da lua. Mas um fato me intrigou. A lua, doce e maledicente lua, estava por um fio de desaparecer. Só lhe restava um naco. Um fiapo. Uma réstia de lua. Alguém, ou algo, havia dado uma dentada na lua. Uma dentada de Pit-bull, com toda a força das suas mandíbulas. Só restou da mãe lua uma pequena nesga. Menos de um terço dela. Saí de casa com o coração em sobressalto. O que fizeram com a pobre lua? E quem seria o autor da mordida? O sol despeitado? Alguma estrela decadente? Ou um astronauta apaixonado? Ou algum namorado excitado? Ou alguma bruxa valente?
Ao ver a pobre lua decapitada no seu terço, reduzida a uma nesguinha de nada, fiquei com pena dela. Tomara que a outra lua do dia seguinte renasça. Desta lua minguada, quase espevitada, surja uma lua novinha em folha. Para alegria minha e dos namorados de todo mundo.
Lua bonita é pra ser inteira. Não reduzida a tiras. Vê-la, lá em cima, fatiada, me incomoda. Pois como todo amante que se preza, eu amo a lua, como amo “ela”...