Com o calor que grassa lá fora, me veio à baila uma inveja danada dos peixes. Até então, antes de agosto, julho ou no mês que lhe antecedeu, um frio fazia enregelar pingüins, aquelas aves que usam smoking, sempre elegantes num desfile a rigor, no alvo brancume da neve. E com um fator agravante, ao se tratar da inveja dos peixes. Aqueles seres molhados não têm o costume de se aninhar, nem caem de amores pelos alevinos, os peixinhos bebês, criaturinhas aquáticas, as quais não se precisa matricular nas aulas de natação.
Geralmente as famílias se formam com uma dupla, que depois se transforma em trio, ou, com o tempo, quando se deseja aumentar o contexto, uma quadra se forma, ou quíntuplos, sêxtuplos, ou uma família fecunda em nascidos, quase uma fornada de pães, que o padeiro fabrica para o batalhão. Muitos lares são pródigos em filhotes, uma manada ruidosa, cada um comandando a alegria, voluntariosa família de muitos rebentos. Já outros ficam só no casal, que nem deveria se enveredar pelo casamento, já que quem casa se pressupõe continuar a espécie, um lançando genes no caminho do outro, formando uma árvore de genealogia. Triste será a família que não se continuar pelos filhos. Muito embora algumas pensem deixar ao cachorro toda a herança da família.
Conheci um casal, que se casou nos idos de 1978. Um ano depois nasceu o primeiro filhote, amado filhinho de louros cabelos, que cresceu com todos os mimos. Ele ficou a enfeitar a casa, apenas ele, por cinco anos sucessivos. Foi quando a ele sucedeu uma menina chorona, gordinha quando nascida. Ela, tão logo saiu da barriga da mãe, uma operosa senhora das agulhas e tesouras, aprendeu, e nunca mais se esqueceu, de posar para fotografia. O menino, cinco anos mais velho, bem cedo enveredou-se pelas quadras de tênis, experimentando uma vocação de berço, que talvez tenha herdado do avô, e por continuação do pai, médico por formação, cronista por predestinação.
Os dois filhos, menino e menina, permaneceram no ninho até a idade de aprender a voar. Após os tombos e vôos fracassados, entenderam que lhes era chegada a hora de um vôo solo. Levaram tombos, aterrissagens forçadas ampararam-lhes os primeiros tempos. Depois, de tantos tombos e tropeços, ainda sob a tutela dos pais, cada um se escafedeu. Ficaram tempos e tempos um junto ao outro, como irmãos, que eram de fato. Estudaram, perderam noites a pensar no ninho antigo, agora um novo ninho, numa bela região da cidade ninhal. Cinco ou mais anos se passaram. Depois, novo ninho, novas escapadas. Os filhos, antes aninhados num mesmo ninho, cada um decidiu procurar uma árvore nova, pois a velha não mais satisfazia-lhes os sonhos, seus vôos, ainda titubeantes, mas empurrados por asas fortes. Foi então que a vida colocou aquela família cada um no seu canto. Os pais, saudosos e preocupados, continuavam no ninhal antigo. O filho homem num ninho maior, mais perto, e seguro. E o passarinho fêmea, sonhadora e indecisa, foi para um ninho mais longe onde o sol brilha forte, para seu canto de cisne.
Um dia, olhando um álbum de fotografia, deparei com uma cena triste. Eram três ninhos fragmentados. Um ninho berço, outro, mais longe, um ninho filial. Já mais distante, tão longe, um ninho esgueirava-se num galho frágil. E nele queria voar um pássaro errante, com asas sonhadoras e esperançosas, de um dia o ninho berço acolher a toda família de novo...