O "MÃO-DE-VACA" EXTREMADO...
Não imagino quem deu aos bois, ou às vacas, conforme diz o começo, esse apelido jocoso, melhor dizendo indecoroso, que confere às pobres “mastigadoras” do campo a fama de perdulárias, quase argentárias, pessoinhas que entremeiam de mesquinharia os ares poluídos da cidade. Que eu saiba as mãos das vacas, ou cascos, são coisas duras, divididas ao meio os da frente, semi-inteiros os de trás, que quase não se abrem ou fecham, e não se pode ligar o fato de ser pão duro, a desgraça das pobres vaquinhas, seres especiais.
Pão durismo em excesso incomoda. Mas ser gastador sem freios pode levar ao infortúnio, fazendo de quem o é um devedor contumaz.
Conheço aquele colega desde os tempos dos anos sessenta. Somos quase da mesma idade. Eu, um pouco mais velho, se bem que o espelho não diga, muito menos a opinião de sua mulher.
Já o sabia abonado. Médico conceituado, numa especialidade da medicina que vê o doente apenas do lado de fora. Mas ele, fazendeiro assumido, catireiro convertido, genes herdados do pai, extrapolava a fama de sovina. Apenas quando por ele passava os ares da política, se via sua mão entreaberta, distribuindo santinhos, ao lado de uma nota das medias.
Um dia me lembro da data. Era seu aniversario, um dos tantos enta que a vida a ele presenteara. Neste dia não houve como escapulir da efeméride. Pilhamo-lo em casa, ao lado da esposa loura, com um leve toque de tinta.
Como a geladeira estivesse vazia, com apenas uma bilha d`água, tive a infeliz idéia de convidá-lo a um restaurante.
Hora marcada e prevista, eis que fomos os quatro, minha esposa e a sua, a uma bela pizzaria. Na hora de pagar a conta, que não ficou tão convidativa, sobrou para quem a missiva? Justamente pra mim, seu amigo, o único que levou a carteira.
Hoje, janeiro quase partido ao meio, tive mais uma das minhas idéias infelizes.
Na geladeira estava um frango prontinho, e uns quiabos comprados na feira.
O meu amigo e colega passava de brincadeira. Mais um convite aceito, sem eira nem beira.
A mesa ostentava uma enorme panela, com o belo frango nadando no quiabo gosmento. Ao lado do arroz branquinho, uma salada como acompanhamento, o meu amigo esperto, nascido meio médico, meio fazendeiro, pediu uma colher, coisa pra se tomar sopa.
Na hora me veio uma dúvida atroz. Por que comer de colher, já que frango com quiabo se usa comer de garfo?
Foi então que o compadre “mão- de- vaca”, com aquela calma peculiar a quem sabe das coisas, e da vida, respondeu-me sem pestanejar: “comer frango com quiabo de garfo deixa escapulir o caldo. É um desperdício enorme, contra o qual tenho de me precaver.”
Daí o apelido do meu amigo, “mão- de- vaca” assumido, ainda por cima precavido, contra a baba do quiabo...