VOU DESISTIR DE SENTIR SAUDADES...
Maldita sensibilidade! Sentimento que me põe inquieto, pensando sempre no que já foi, tentando voltar ao ponto de partida, depois de caminhar por tempos a fio, experimentar sensações e provações distintas, sofrer com arranhões que só resvalaram a alma, e não deixaram marcas aparentes, mas que ficaram indelevelmente gravados no subconsciente, em lugar onde só eu conheço. Maldita sensibilidade! Que só consegue fazer apiedar-me de mim mesmo, e, como feijão com torresmo, deve ser degustado pouco a pouco, para que a gente não se esqueça de quão gostoso era o beijo daquela moça. Maldita sensibilidade! Que apenas em mim faz doer a saudade, pois não consigo esquecer que não nasci hoje, e sim há sessenta anos, de papel passado. Maldita sensibilidade! Sentimento inoportuno, que nos faz recordar de pessoas que hoje são histórias, enterradas em nossas lembranças, que deixaram traços marcantes em nossa personalidade. Maldita sensibilidade, que nos cutuca a saudade, daquela idade que foi levada pelo vento, depois da tempestade da vida.
Tenho saudades de quase tudo. Dos tempos idos na praça, quando voltava da escola, cabulando a última aula, só para admirar a mocinha de mini - saia, que causava um furor enorme durante o intervalo. E ela não me dava bola.
Tenho saudade dos pés de rosa amarela da minha avó. Fincados num jardim elevado, pelas quais ela tinha grande veneração. Tenho saudades da sua broa de milho, que, recém saída do forno, provocava em mim momentos de salivação.
Tenho saudades de um clube vizinho de minha casa, onde aprendi que trampolim é perigoso, e pode nos fazer quebrar o pescoço, sobretudo quando nós, moleques exibicionistas, nos atirávamos de lá para chamar atenção. Foi naquele clube que tem a minha idade, que passei a mocidade, deixei de ser menino em suas mãos.
Tenho saudades até do vento que levantava as saias das moças, que juravam que iam pro convento. Tenho saudades das brigas de rua, onde mais apanhava do que batia. Tenho saudades do beijinho doce, que fazia o mesmo efeito do mertiolato, desferido por minha mãe, que sempre recomendava não trazer desaforo pra casa.
Tenho saudades das férias de fim de ano, das notas em vermelho, que eram poucas, mas eram as grandes irresponsáveis pelo adiamento das minhas viagens à roça.
Tenho saudades do meu cavalo alazão, companheirão, que refugava na ponte do rio, corcoveava, fazia-se de duro, mas atravessava o obstáculo, depois de aprender quem era o dono.
Tenho saudades daquela donzela que tinha um pai que era uma fera. Mas foi durante a sua ausência que eu aprendi a fazer sexo, e que ejaculação prematura acaba com o tempo.
Tenho saudades daquele pé de camélia rosa, que nasceu sem ser plantado nos fundilhos da casa onde nasci, e dali foi levado, mas morreu na viagem ao ser replantado.
Tenho saudades das galinhas poedeiras que viviam num cercado da horta dos fundos. Foi ali que quase perdi a fimose, depois que um galinho safado beliscou-me a minhoquinha que até hoje jaz dependurada onde a minha vergonha termina.
Tenho saudades das minhas melenas topetudas, que enfeitavam-me o álbum de formatura, mas que foram engolidas pela inclemência do tempo.
Tenho saudades do primeiro paciente, que pacientemente me passou pelo bisturi, e me agradeceu a cura.
Tenho saudades de quando alguém, num dia de inverno, despediu-se da vida, não sem antes me desejar muitos anos de vida. Tenho inclusive saudade de uma namorada, que, se não foi a primeira, acabou por ser a derradeira, e hoje ocupa um lugar exclusivo em meu coração.
Tenho saudades dos meus pais que me deixaram sem pedir licença. Primeiro foi meu pai. Depois fez-lhe companhia a minha mãe. Que Deus os tenha.
Tenho saudade do nascimento do meu primeiro rebento. Foi um menino lourinho, que custou a chorar, mas que me fez despertar noites a fio, graças ao choro que faltou-lhe depois da expulsão.
Também tenho saudades da minha menina, que nasceu cinco anos depois. Hoje virou mulher, avoou pra longe de nós, mas sempre volta como um pássaro ao ninho.
Tenho saudades dos amigos que já se foram. Foram vários, não sei quando será a minha vez. Tomara que os encontre lá no alto.
Tenho saudade dos meus cachorros, fiéis amigos que deixaram rastros nos pés da mesa da sala. Mas até o cheiro da sua urina me faz falta.
Tenho saudades da minha rua. Quando ela não tinha asfalto, era uma rua tranqüila, calçada em pedras lisas, que por várias vezes arranharam-me a compostura.
Tenho saudades até da lua daqueles tempos. Eu a admirava com olhos ingênuos, pensando que era um queijo inteirinho, impossível de ser comido, mas que um dia alguém iria conseguir-lhe um naco, para comer com goiabada cascão.
Tenho saudade de muita coisa. De muitas pessoas que hoje aqui não mais estão. Tenho saudade de outra idade, quando ainda era criança, a espera de um Papai Noel, que depois se provou ser brincadeirinha de criança, fruto de pueril imaginação.
Depois de tanto sentir saudade, de fazer doer em mim a sensibilidade, de perder o sono pensando no quanto foi bom o passado, acabei por desistir de sentir saudade.
Melhor pensar pra frente, pois o passado é fardo enterrado, o presente é fruta madura, e o futuro a Deus pertence...