PROLFAÇAS E ENSANCHAS...
Para se escrever gostoso, dir-se-ia apetitoso como o bolo de milho que saiu do Forno da nossa avozinha, aquela velhinha simpática, que usava um pince-nez a montar-lhe o nariz adunco, mister se faz usar de simplicidade, evitando-se palavras difíceis, fora do uso pouco letrado da nossa gente iletrada, palavrões mal encarados, que nos levam ao dicionário, pai chamado de pai dos burros. Quem escreve usando palavras inteligíveis corre o risco de ser deixado de lado, como a tia foi deixada solteira, unicamente por ficar fora do tempo.
Desde quando comecei a cavalgar pelas letras miúdas, pois apenas deixo o maiúsculo para o começo do texto, evito falar mais que o necessário. E falo de acordo com o vocabulário que o povo entende.
Daí o sucesso de um certo presidente, que perdeu o dedo no batente, não estudou, desconhece o idioma no seu âmago, mas fala como o povo entende, cometendo suas gafes, usando seus garranchos, praticando o improviso ululante, em tiradas desimportantes.
Um dia de sábado quente ousei botar os olhos coerentes num quadro de um clube onde moro, há exatos três ou pouco mais de anos.
Esse condomínio amistoso, cercado de verde e de amigos, me tem feito um bem enorme, mais a mim do que ao meu cachorro. Acontece que ex amiguinho peludo escapou por entre seus muros, já que sempre ambicionou ser cachorro de rua, embora com um notável pedigree.
Agora, passados dos enta, embora me sinta um moleque entregue às primeiras namoradas, vivo entre muros, com algumas escapadelas pelas ruas da cidade.
Desde há tempos dos quais não lhes conheço a idade, toma conta de um bar, local de se reunirem os amigos, um amistoso dono de botequim.
Ele joga em todas as posições, desde o beque ao meio de campo, sabe de tênis como se fosse praticante, conhece em termos o vôlei de quadra, não sem antes passar pelo de areia. É um vizinho com larga folha corrida pelas mesas de bar, atendendo e bebendo todas, sem se deixar levar pelas mãos incertas do Deus do álcool.
Tem um espírito aberto, alegre, proseador de mancheia. Fala pelos cotovelos, e, depois do desmazelo de um domingo tomando todas, comendo do bom e do melhor, ainda nos apresenta uma conta sem ser salgada ao extremo, como a beirada do meu cozumel, que ele sabe fazer como se fosse um mexicano.
Todo este tempo ele faz sucesso entre os habituées do lugar. Caso ele se fosse voando como as folhas de uma seringueira, minha vizinha de sujeira, o clube teria um inesperado desfecho. As portas se fechariam, como fecha a porteira depois do gado passar.
Hoje, sábado, dia de jogo de futebol, dia de juntar gente animada, cada um torcendo por seu time do coração, tive com o amigo do balcão um agradável colóquio.
Foi ele quem me levou ao quadro do clube, adonde se viam avisos, e algumas recomendações.
Naquele quadro, onde poucos se atrevem a enfiar os olhos, estava uma missiva, resultado de uma reunião do conselho deliberativo do condomínio, assinado por uma fulana de tal.
Depois da data, do título, eis que na primeira frase que encabeçava a comenda, se me afagaram os olhos duas palavrinhas pouco digeridas. Elas eram pra mim novidade, como me fez conhecedor meu retireiro, que vaca fica maninha se não é montada pelo touro.
São elas: “Prolfaças e ensanchas”.
Como burro praticante fui ao meu pai. O dicionário, tenho dito.
Foi ele quem me ensinou: “prolfaças é uma palavra em desuso, pedante sem ser diletante, que trás por trás de si o seguinte significado: - congratulações, cumprimento, felicitações, parabéns. Na logosofia ela enseja: uma nova forma de sentir e conceber a vida.
Da mesma forma, ensanchas, demonstra: “folga, possibilidade, alargamento, ampliação, ensimesmar, concentrar, meditar, ou, se preferirem – meter-se consigo mesmo.
Ao final o pai dos burros ainda zurra: “a simples interpretação da lei não dá ensanchas ao extraordinário”.
No dia seguinte, domingo de fevereiro, o meu amigo do bar serviu no cardápio: prolfaças e ensanchas ao molho pardo.
Não sei se os fregueses gostaram. Mas tiveram uma bela indigestão com a nossa última flor do Lácio, inculta e ainda mais bela. Principalmente se cuidarem dela com mãos desprovidas de pedantismo, com simplicidade e sensibilidade, como um certo presidente iletrado faz.