Engraçado como engraxate se agacha aos pés do freguês, pede que ele repouse os pés na caixa de sapateiro, limpa a sujeira que enfeia o couro lambão, passa um dedo de graxa na barriga do sapatão, e, a seguir, usando um pano remelento, com cor de burro ao relento, dá lustro ao couro encardido, deixando o infeliz ex sapato sujo como novo em folha. Prontinho para ver por baixo das saias das menininhas, desprovidas de pecado original.
Engraçado como a gente, sem malícia, sem maldade, não consegue enxergar dentro dos olhos de quem nos oferece seus préstimos.
Somos um cabedal imenso de falta de sensibilidade. Não sabemos avaliar o que se passa nas idéias das pessoas. Se elas são amistosas ou rancorosas. Se elas são verdadeiras, ou dentro delas se esconde um Pinóquio de verdade.
Eu mesmo sou um incapaz. Nem de longe imagino se aquela pessoa é um safado ou caboclo a ser confiado. Nem de longe consigo imaginar se por trás daqueles olhos fugidios se esconde um bandido, ou pessoa respeitável, que cuida do que é seu, e deixa o dos outros em seu devido lugar.
Este tipo de qualidade, de saber julgar o que vai por detrás dos sentimentos, nunca me vai ser possível aquinhoar.
Na roça onde só levo manta confundo gato com lebre. Compro gato, levo rato, confundo esterco de galinha com bosta de vaca curtida, entro em cada roubada, mas não me arrependo.
Isso de acreditar nas pessoas faz parte de mim. E não há como me libertar. Julgo no afogadilho, sou açodado de berço, estendo a mão a quem não precisa. Fecho a mesma mão a quem realmente dela carece.
Este fato, que grudou em mim como carrapato, não tem conserto, como o velho sapato que o engraxate remendou, lustrou, e hoje repousa num canto, exibindo seu desencanto, com o brilho do sapato novo, que hoje deixou a loja.
Comigo convive há um ano, ou pouco mais de um, uma garota, mais menina do que moça, que se deixa enfeitar por umas gordurinhas que desafiam a balança, fazem a loucura da esteira da academia, empapam de um suor doce como o açúcar que o beija-flor oscula da flor de maracujá.
Aquela menina virou enfermeira aos trancos e barrancos. Ela nasceu e viveu na roça. Mãos ásperas, em contraste gritante com a maciez da pele que lhe veste o resto do corpo. Quem lhe afaga a palma da mão percebe que ela sempre pegou no pesado. Não sei se a enxada fez parte do seu roçado, se a foice dormiu ao seu lado.
Há um ano ela trabalha do meu lado. Com uma pontualidade espartana, faça chuva ou resvale o sol. Ela chega pela manhã com roupa de ginástica, quase respingando por onde passa, com as covinhas que lhe enfeitam o canto da boca se exibindo como borboletas depois de nascidas.
Como ninguém é perfeito, pois quem tentou sê-lo morreu na cruz, a enfermeira novata é um pouco atabalhoada. Poder-se-ia dizer de pouco capricho, com seu corpicho de ninfeta roliça.
No começo de carreira as veias se lhe fugiam de medo. Mas com o tempo mancando, ela perdeu o medo daqueles caninhos travessos, que se escondem em quem tem gordura em excesso.
Na semana que zuniu em fevereiro, mês curtinho, metido a besta, por ser folia de carnaval, ela tirou um tiquinho de férias. Uma semaninha miúda, que passou logo, como passam as chuvas de verão.
Em seu lugar ficou uma coleguinha, também menina ainda moça, só que com metade da metade do seu peso.
Foi o suficiente para pesar as duas na balança. Confesso que o prato despencou pro lado da mais antiga, aquela que tem duas covinhas de cada lado da boca.
Hoje, semana depois do carnaval, dia quente, quando a folia foi à nocaute, chegou para o trabalho a gordinha alegre e jovial. Chegou a irradiar simpatia, montada na alegria das vacas quando expulsam as crias.
Chegou da mesma forma esbaforida, atabalhoadamente, desassossegadamente.
Chegou de repente. Quase chutando a mesa pela janela, deixando os pobres peixinhos com saudade da outra.
E ela chegou, de repente. Foi quando dei a mim uma resposta à minha ansiedade. Sabia que era péssimo em julgar as pessoas. Sempre troquei gato por lebre.
Mas quando aquela meninha roliça, com duas covinhas a cavalgarem-lhe o canto da boca, chegou para mais um dia de trabalho, a fim de me ajudar a passar as doenças a limpo, pensei com meus embriões: “e eu que pensei que não iria lhe sentir saudades”...