“Quando falares, cuida para que suas palavras sejam melhores que o silêncio”.
Pelo menos isso me foi ensinado, antes que comece a dedilhar meus textos. Pois, palavras soltas o vento leva. Escritas, nem o papel enjeita.
Nunca é demais anunciar que excluí do cardápio o automóvel. Pobres concessionárias, se dependesse do meu bolso surrado, que, caso fosse a ele possível, comprava na loja onde se vende guarda-chuva uma dezena de pernas novinhas, cada uma com seu tênis adequado, todas cuidadosamente guardadas no armário da cozinha, para, a cada dia, seja de dia ou no debruçar da noite, pegar uma delas, trocar na medida certa, para exibi-las orgulhoso na feira dos domingos.
Via de rotina acordo antes que os vizinhos abram a janela do quarto. No máximo uma coruja madrugadeira, um bando de maritaca viajante, ou um andador contumaz, sai da cama antes que minhas pernas pisem do lado de fora.
E, antes que o relógio da igreja matriz aponte seis e meia, naquela hora temprana, ainda com cara de lua cheia, por lá passo eu, andando, me esquivando dos gatos respingados que partem em direção ao trabalho, vendo com olhos amenos as adoráveis mocinhas, que, uniformizadas ou não, vão para a escola, aprender o que eu deveria ter aprendido.
Hoje, sexta-feira, dia que começou feliz da vida, e agora, por volta das oito, mostrou estar infeliz, percebi, numa altura do passeio, duas meninas seriemas, pernaltas donzelas, lindas como uma moita de bambu açoitada pelo vento. Elas iam para escola. Pois, como sou atento ao que me interessa, ambas levavam um par de mochilas às costas, e freio a endireitarem-lhes os dentes.
Um detalhe ficou patente. Embora ainda soldado raso, pois o detalhe ainda não tinha patente. As duas meninas moças não haviam tirado de sobre o corpinho de anjo barroco o pijama que lhes cobria o corpo pecaminoso.
Passei por elas, não sem antes observar-lhes os fundilhos, e fiz-lhes uma observação reticente: “por acaso vocês duas não se esqueceram de tirar os pijamas?”
Foi quando ouvi de uma delas a resposta para a minha pergunta abelhuda: “olha, meu senhor, hoje é dia de prenda na escola. E fomos as escolhidas para mostrar aos outros como a gente dorme.”
Passei por elas num ziguezague maroto. Pensando com meus senões: “caso o pagador de prendas fosse eu, seria preso no ato. Pois, quando durmo fico pelado, e nem a mão no bolso me deixam enfiar.”
Ao caminhar pelas ruas da nossa querida cidade, andando por locais ermos como o sertão de Guimarães Rosa, observo, como a coruja olha girando o pescoço por 360 graus, todas as vicissitudes do nosso ninhal.
Acorda Lavras! Dê uma olhadinha solteira por seus passeios abandonados, cada um deles mordido por buracos enormes, que se enchem de águas barrentas quando cai a chuva. Perceba ainda os cães vadios, que perambulam sem rumo pelas ruas, deixando a sua caca nas calçadas, a nos sujarem os pés andejos. Observe os lotes abandonados, sem muros, sujos como pau de galinheiro, sem calçadas, sem as mínimas condições de morarem em nossa cidade. Contemple o movimento ensandecido do trânsito pesado, que empaca nas horas de pico, e anda como anda o hipopótamo no seco, depois de deixar o rio. Não deixe que caminhões pesados passem pelas ruas do centro, deixando no asfalto esburacado a sua tatuagem ignóbil. Eduque as pessoas para que não emporcalhem as ruas da cidade, deixando lixeiras fortes e inquebráveis em lugares propícios. Solicite encarecidamente que seus moradores deixem os carros na garagem, para amenizar as agruras do tráfego enfurecido. Não havendo como fazer engordar as ruas, construa calçadões, por onde pedestres educados sejam convidados a andar. Não permita, minha cara prefeitura, que uma construção esdrúxula tome todo o espaço de uma praça, complique ainda mais o movimento dos autos, ao custo alto de cerca de três milhões de reais, que poderiam ser mais bem destinados a construção de creches e postos de saúde. Aliás, por falar no tal edifício, de difícil compreensão, ele estava bem como antes, não precisava tal desperdício, pois que eu saiba os Big Brothers que ali se reúnem uma vez por semana, poderiam muito bem se reunir numa salinha modesta de um imóvel qualquer, de posse da prefeitura. Pois, que eu saiba, minha querida Lavras. Executivo e legislativo são farinhas do mesmo saco sem fundo...
Acorda Lavras!!! Como eu que acordo cedo, antes da coruja ir à caça. Antes que os Bem-te-vis comecem sua arruaça. Antes que o Trinca-ferro, com seu bico de ferro, me acordava como ele fazia, antes de me deixar na saudade, quando da sua morte precoce...