Até hoje, andando pela minha longevidade não tão longeva, uma dúvida me preocupa. Vaca de dois peitos dá leite igual a de quatro? Ou metade deste leite? Deixo a resposta ao retireiro, pois a minha, que foi desmamada com mamite, quando despejou o bezerro foi ao curral tristinha, com apenas dois peitos vazando. E enchendo dois baldes inteiros, em apenas uma ordenha. O que importa não é a bica do leite, e sim o continente, o mojo, caixa d’água de leite.
Quando comecei com minha rocinha, isso há mais de trinta anos atrás, naquele pedaço de terra de má fama quem fazia a vida não eram as vacas de leite, e sim os carrapatos e formigas, que davam em quantidade tamanha, que ao chegar ao meu sítio pedia licença àqueles insetos ferozes, embora nanicos, que, se mordem fazem tamanho estrago, que quem foi mordido não consegue assentar. Ou mesmo raciocinar.
Ainda me lembro, olhos grudados na cara, de quando comprei uma mula para puxar a charrete, uma caminhonete que anda sem gasolina, e sobe ladeira inclinada, que a outra caminhonete de pneu regateia.
A tal mula me custou os olhos da cara. Os mesmos olhos brejeiros que sempre avista mulher bonita, e não se esquece que beleza ainda põe mesa, e pode servir de sobremesa.
As lembranças continuam luzidias quando a mula de preço alto começou a mancar. Mancava da perna direita. E da manqueira não se curou.
Foi quando a vendi a um sitiante mais nanico que eu era. O esperto moço da roça, bom de enxada, e bom de braço, com a minha mula manca enricou. Hoje ele tem dez tratores, duas mil vacas, um curral tão grande que se pode ver do céu, e a mula manca ainda continua lá, a zurrar da minha incapacidade de saber se a mula é boa.
Depois da mula vendida comprei um cavalo de raça. Que não puxava charrete, mas me deitou no chão com tal velocidade que até hoje sinto uma dor dos diabos no assento onde me assento.
O cavalo grandão já foi jogado no passado. Pode ter virado salsicha de carne de cavalo, ou até mesmo de égua.
Depois do tal cavalo safado comprei uma outra égua. Coisa boa, boa de marcha, melhor ainda de charrete, só não soube se ela era boa de cupim.
Dois meses depois que ela se mudou de mala e cuia para a minha rocinha nanica, aquela onde os carrapatos e formigas fazem fila pra me morder, tive uma alegre surpresa. A égua castanha tinha vindo com uma filha na barriga, sem que seu ex dono soubesse.
Foi então que nasceu uma linda eguinha, metade pai, metade mãe. Ela era da cor de uma aquarela onde cairam centenas de latas de tinta, uma mistura de branco, castanho, preto, amarelo, azul anil.
A filha deu coisa boa, como boa lhe era a mãe.
As recordações da minha egua castanha ainda hoje povoam o meu coração.
Uns tempos ela passou mais magra que modelo anoréxica. Uma ferida montava-lhe no lombo forte, uma pisadura que logo foi curada, graças ao bom trato que meu novo retireiro nela despejou.
A excelente égua castanha ficou comigo mais de dez anos. Servindo de montaria, de trator, só não soube se ela serviu de amante a um pretinho safado, que com ela se engraçou.
Até que ontem, sábado, inicio da semana santa, véspera de domingo de ramos, o meu telefone tocou.
Era uma ligação a cobrar. Até o telefone chorava, lágrimas de telefone.
O meu retireiro, pessoa confiável e bom de braço, respeitador dos animais, quase não conseguia falar.
Entre lágrimas que não secavam ele tentava explicar: “doutor. Hoje a tarde uma pessoa desceu até aqui em baixo, e me informou que tinha uma égua baia atolada num mata-burro. Ela teve a perna moída, feita em pedaços pelo furo do mata-burro. O que eu faço com a pobre?”
Naquela noite escura, véspera da semana santa, encomendei a alma da égua ao padre da minha confiança. Pedi que os anjos cuidassem dela. Como ela cuidou de mim.
Não quis nem saber onde a minha querida égua foi enterrada. Ou se virou pasto aos urubus.
Aquela foi a primeira vez que um mata-burro matou uma égua. Ele deveria ter matado um burro. Como eu...