Estamos em plena semana santa, dias santificados, período que muita gente guarda como especial, época de oração, contrição, devoção, penitência, embora eu considere que todos os dias sejam propícios a pensar em Deus. Não só para pedir, implorar, pelo simples fato de precisar, carecer muito. Pois a maioria tem o costume deplorável de sempre pedir. Não de agradecer, pedir em causa própria, não pensando no outro, naquele que sofre, como sofreu Jesus.
Quando menino, por volta daquela idade da falta discernimento, de acompanhar os pais que nos levavam pela mãozinha obediente à missa das dez, pensando na hora do fim da missa, para descer em desabalada correria à querida pracinha do centro, onde no rela do jardim desfilava toda garbosa a menina de saia rosa, trancinhas cuidadosamente feitas pela tia torta, que nos enrabichava olhinhos gulosos todo o seu assanhamento.
Nem me lembro se aquela mesma menina se casou comigo. Se não foi ela, foi outra inda mais bonita.
Naqueles idos anos de antes ainda me passam pelos olhos as procissões da sexta-feira santa. Sobretudo as que saíam à noite. Eu me debruçava na varanda avarandada da casa da minha avó por parte de mãe, olhava para o cortejo comprido, com a lua copulando com o sol dorminhoco, e sonhava com uma correição de vaga-lumes com suas luzinhas pisca-pisca, feericamente iluminando tudinho.
Hoje os vaga-lumes não mais vivem nas cidades. Foram escorraçados daqui pelo trânsito enfezado, pela falta de poesia das pessoas, que matam vaga-lumes com as mãos em concha, como se estapeia um pernilongo sanguessuga.
A história que a partir de agora conto juro que não é inverdade. Ela de fato aconteceu numa rocinha chocha, onde morava uma família pobrinha, constituída de pai, mãe, e um filho novinho.
Eles eram tão pobres que a pobreza verdadeira para eles era brincadeira.
Viviam numa casa feita de tronco de bananeira, coberta por umas tiras de folhas de zinco que alguém deixou ali por acaso, como se fosse lixo.
A casa não tinha porta. Pois, com aquela pobreza torta, quem iria querer afanar a miséria que ali morava? Só se fosse para roubar uma cadeira com duas pernas quebradas, uma cama sem estrado, onde, quando um se deitava, o outro tinha de escorar a cama para que ela não estropiasse no chão duro de cimento esburacado. Quem iria querer botar os cinco dedos numa televisão que só tinha a caixa, e mesmo assim carunchada?
Tudo que eles tinham era amor um pelo outro.
Um dia, dia santo, em plena semana santa, eis que por sorte da família paupérrima apareceu um tio da cidade, pessoa de bom coração, desconhecido de todos até então.
Ele, ao ver a pobreza pobre da família da roça, que nunca tinha ido à cidade, no máximo que o pai foi, num dia de romaria, foi à Aparecida do Norte. Mesmo assim o ônibus dos romeiros furou o pneu, esquentou o radiador, e, quando estava quase em Aparecida, deu uma chuva de levar bois na enxurrada, e gorou a romaria.
O elegido para a viagem foi o menino pobrinho. Que no máximo tinha ido, assim mesmo por vontade do avô, que Deus o tenha, a um rio piscoso que cortava a estrada ao meio vinte quilômetros adiante.
Quando o tio deu a notícia à família, o garoto quase cortou um dedo do meio, ao apertá-lo no tampo da mesa.
Arrumou o embornal com as duas calcinhas furadas no joelho esquerdo, ajeitou como pôde um par de camisas surradas que ganhou de presente de um vizinho, que ia jogá-la no lixo, e foi todo faceiro à cidade dos sonhos que nunca, pensava, se concretizarem.
A viagem durou dois dias e duas noites.
Eles chegaram à cidade por volta das seis da tarde, quase noite.
Naquela hora, nem noite, nem tarde, o trânsito enfurecido já mostrava o ar da graça, embora seja uma desgraça tentar chegar a algum lugar nas horas de pico.
Era uma noite escura. No alto se via a lua com o nariz fechado, para tentar evitar aspirar fumaça que saía louca dos escapamentos dos carros.
O menino não apreciou a primeira visita a uma cidade grande. Ele preferia a sua rocinha, com seus vaga-lumes irrequietos, bundinhas ligadas às bundinhas das vaga-luminhas fêmeas, com as estradas poeirentas tornarem-se lamacentas ao sabor da chuva miúda que era uma bênção ao povo da roça.
Sentiu saudade do seu chão. Mesmo com tanta pobreza, com tanta miséria curtida no lombinho magricela, que quando o cachorro sem raça matava um tiú, era um banquete supimpa.
Durante a volta pra casa, por uma rodovia moderna, com aquelas lanterninhas agarradas ao asfalto piche, que quando o farol do carro alumia acende uma luzinha maior que a do vaga-lume, o menino pobrinho da roça, olhinhos semifechados de sono, exclamou em voz alta ao tio: “tio! Veja! Uma correição de vaga-lumes em dia de procissão!!!”
No dia seguinte ele acordou na mesma cama que requebrava. Na mesma sala do sofá rasgado. No mesmo lugar tão lindo que ele nunca iria trocar por lugar algum...
Muito menos os seus vaga-lumes dóceis...