ZÉ MIGUEL E EU...
Sempre admirei as gazelas, os guepardos e seriemas, assim como os pés que escoiceiam o vento, os tênis que nos permitem correr, as cachoeiras que despencam do penhasco num dia de chuva forte, e até mesmo o ratinho miudinho, que escapa da vassoura da dona de casa, que estabanada tenta matar o bichinho, que sai da vassourada tremelicando de medo, para depois morrer ao comer chumbinho.
Sempre fui um admirador confesso do Tênis. Um esporte dito elitizado, só praticado por gente de fino trato. Mas depois que mudei de bairro, de sair das barbas de um clube ao qual ainda tenho em alta conta, de perder a parceria estimuladora do meu pai, passei a praticar outro esporte.
Confesso que nunca fui um corredor nato. A minha paixão por usar as pernas de muletas tem data recente. Foi a partir da mudança de ares, de um bairro que hoje virou república de estudante, a um condomínio, na parte alta da cidade, que aprendi que pernas não são para pensar, e sim para andar, e depois correr.
A diferença entre caminhar e correr é muito simples. Andar é quando aquela pontinha do tornozelo, anatomicamente situada na parte de dentro, passa pela cara metade com tempo de dizer bom dia. E correr é quando, na mesma demão, a mesma parte do tornozelo mal tem tempo de olhar pra carinha desconsolada da sua alma gêmea, que passa do outro lado com a mesma pressa ensandecida da irmãzinha querida.
Antes de hipotecar a minha admiração ao titular do meu escrito, quero deixar patente que não sou um velocista. E sim um trotador macio, com a mesma marcha repicada da minha querida égua tordilha, que perdeu a vida num mata-burro, num dia em que se distraiu.
Nós, Zé Miguel e eu, temos quase a mesma idade. Acredito que ele seja um cadiquinho mais idoso. Mas quem nos olha de rabo de olho logo acha que ele é muito mais rodado.
Desde quando por aqui perambulo ele já era um corredor nato. Naqueles tempos fecundos quase não se falava em academia. Muito menos em corrida de rua, em tênis Mizuno Wave Runner, ou outro de boa grife.
Podem dizer que o meu amigo Zé Miguel corria em trote mixuruca movido por uma dose maiúscula de cachaça. E quando ele estava sóbrio não era pura alegria, como quando ele entornava algumas.
Poderia dizer que somos almas gêmeas. Embora de cores distintas. Ele da cor do anu. Eu um cadinho mais desbotado.
Quando nos vemos pelas ruas ele logo se achega para um abraço. O trânsito no passeio empaca, e tome bafo de pinga na cara.
Um dia corremos um naco de minutos lado a lado. Ele assim o fez pois eu lhe prometi um café com pão na padaria de costume. Minutos depois da partida, sem apito, ou bandeirada, ele desistiu da empreitada, com a desculpa esfarrapada que tinha desistido do café com pão, pois nunca os trocaria pela pinga malvada.
Mesmo assim continuamos amigos. Afáveis almas gemelares, embora com preferências diametralmente opostas. Ele continua amante da pinga. Eu não troco minhas letras por nenhuma garrafa.
Não sei até quando vamos nos rever pelas ruas entulhadas de caminhantes, pisando passeios estreitos, em mal estado de conservação, atolando os pés nos buracos baldios, pisando a contragosto em titica de cachorro, levando bolsadas nas partes baixas, e tendo de suportar os autos ameaçando nos devorar.
Eu sempre admirei as gazelas. Os guepardos. As seriemas.
Como confesso admirar o Zé Miguel. Ou melhor – o Baratinha, ou Barata para os maiores de idade.
Ele, aquele Sacizinho moleque, que pensa que a vida é um mar de cachaça, é minha alma gêmea escura como piche. Em noite de lua cheia.
Zé Miguel, o Baratinha, ou Barata, é meu amigo dos pés de vento, que pensa que o mundo gira em torno de uma boa corrida...