Quem disse que a fortuna, ou sorte, ou qualquer coisa nesse sentido, fazia sentido para o pobre Fortunato?
Ele, um bicho do mato, sujeito nascido no dia da tristeza, cheio de imperfeições de berço, tudo que punha as mãos enferrujava, ou carunchava, ou, para não dizer pior, azedava como o leite azeda, quando o leiteiro o deixa fora da geladeira, num dia de calor.
O pobre Fortunato nasceu num dia de quase nada de sol. Depois de uma semana de chuva tinhosa, quando não se podia ver o sol arreganhar-se pra lua, nuvens escuras brincavam de pique - esconde com o sol, na terra molhada a lama se engraçava com as solas dos nossos sapatos, fazendo os pobres diabos se lamentarem de ter saído da sapataria. O dia em que nasceu Fortunato era tão ou mais feio quanto o urubuzinho quando nasce, um pobre filhotinho à beira de morrer de fome, ainda por cima com erisipela e manqueira, carregadinho de formigas enlouquecidas de fome e sede. E ele sobreviveu a tudo isso. Contrariando as previsões da parteira, uma bruxa velha com fama de feiticeira.
Ele só cresceu dois palminhos. Mesmo assim porque uma tia torta por ele se afeiçoou. Não fosse a tia caridosa, o Fortunatinho teria morrido na lua nova, antes que a viçosa da cheia saísse da cama cor de rosa.
Quando menino, prestes a ir à escola da roça, a criança sem sorte, coisa esquisita a quem todos evitavam como a peste bubônica, no primeiro dia de aula foi mordido de escorpião. Recebeu a extrema - unção, foi enterrado semi vivo, e só não virou defunto de verdade por causa de uma comadre curiosa, que ao ver o pobre na cova, sentindo que ele estava vivo, salvou-o de morte certa.
Até hoje ele se recorda dela. Com uma pitadinha de saudades.
Em moço não arrumava namorada nem com reza brava. Também, com aquela feiúra donzela, quem iria se aproximar do canguru perneta, quase uma mula – sem - cabeça, faltando o olho esquerdo?
Foi num dia de pura sorte, que uma meninha bonita, vestida de chita, criança adorável a todos que com ela conviviam, se aproximou do menino Fortunato. Aproximou-se arredia, talvez com piedade dele.
Depois a piedade se converteu em um amor bem fininho, do tamainho certo para caber na gaveta da penteadeira da sala de visita.
Da paixão de menino brotou um amor maduro. Como madura fica a jabuticaba quando recebe a chuva no lombo, já tinta de amarelo canário da terra.
Os dois, Fortunato e a menina boazinha, por que não bonitinha, faziam um par esdrúxulo. Ele, mais feio que urubu perneta. Ela, com a beleza de um colibri que sorri, até da fome encardida das aranhas que não comem mosca há mais de dez anos.
Um dia eles se casaram. Não teve festa, nem arrasta-pé. No máximo serviram um quentão mais frio que defunto morto há três dias na geladeira, ligada na temperatura mínima.
Na lua de mel o Fortunato broxou. Nem com Viagra resolveu o impasse. Foi preciso dois. Mesmo assim nada feito.
Dois anos de casados, nenhum filho batizado, o Fortunato foi posto fora do único emprego que lhe sorriu. Da noite pro dia os dois foram despejados, caíram debaixo de um viaduto, e a ponte caiu de bruço.
Ontem, no posto de saúde de um bairro, atendi ao Fortunato. Ele era o último a ser atendido naquele fim de manhã da quarta. Aliás, o penúltimo. Ainda restava na fila maiúscula uma senhora que era um colírio para os olhos dos bem-te-vis ceguetas. Rosto oblongo, sorriso aberto, olhinhos claros como uma borboleta azul. O corpo não devia nada ao de Sheila Carvalho nos seus melhores momento.
Quando o Fortunato manco entrou na sala de consulta logo tive pena dele. Ele não andava. Mancava. Não assentava. Por causa de um furúnculo enorme no rego da bunda. Ele não falava, pois tinha as cordas vocais atrofiadas. De falta de uso. Ele não ouvia nadica de nada. Por causa dos dois ouvidos surdos. O pior do desafortunado Fortunato ainda estava por vir. Era esquizofrênico no degrau mais alto. Mistura de doido com camisa de força em vias de arrebentar.
O Fortunato saiu da sala como um urubu quando é abatido por uma cartucheira de gordo calibre. E cai como cai a nuvem de chuva, no dia da chuva desempendurar.
Quando ele abriu a porta da sala de consulta, entra logo atrás a sua mulher.
Foi como se uma brisa linda adentrasse pela sala escura. Como uma estrela vaga-lume que despenca pela estradinha nanica, em dia de céu estrelado.
Conversamos sobre a vida de casado. Falamos dos filhos dela com o Fortunato. Falamos da vida miserável que eles viviam. Falamos do desemprego do Fortunato. Falamos até da esquizofrenia do seu marido, que o fazia agredir a pobre esposa pobre.
Assim que ela saiu da sala, com aquela calma peculiar, com aquele riso aberto, como quando o sol pede licença às nuvens, eu pensei na claridade que segue a escuridão, num dia depois da chuva.
Aquela mulher encantadora era uma nesga de claridade na vida escura do desafortunado Fortunato...