 UROLOGIA
De todas as especialidades médicas, talvez seja ela a que goze de pior fama. Uma reputação de indecorosa, invasora, estupradora, alimentadora de estímulos pouco viris, pois ela, por meio de um dedo duro, geralmente o indicador, da mão direita ou esquerda, deve, a partir dos quarenta e cinco, ou menos quando se tem sintomas, ou se nasce de parentes com câncer da próstata, o paciente tem por sina se deixar invadir. Mas a Urologia não justifica o destino que dela apregoam. A tal próstata, o pomo de Adão da Urologia, por azar do macho, fica a um toque de dedo do reto, um caminho incômodo, e escondido, tido por muitos como de saída, jamais de entrada. Antigamente era pior. Agora, de tanto a mídia botar a boca no trombone, o homem ficou mais passivo, com mais juízo, e se deixa tocar no lugar tão proibido, e fica de quatro, ou com as pernas arqueadas, esperando contrito a hora de se deixar examinar. O tal exame nauseabundo mal dura um minuto, e a dor, ao contrário do que dela alardeiam, fica apenas no subconsciente, do pobre macho acima dos enta. Mas a saída é a prevenção, quase um samba canção, um canto do cisne, que não atrai gavião. Um exame bem feito talvez pegue o paciente contrafeito, com medo da posição. Mas o tal dedo famoso não é tão grosso como pode parecer. E ele é lubrificado, por uma luva que não deve romper. Um nódulo, uma região endurecida, pode ser sentida, ao primeiro exame. Depois o exame deve ser confirmado por outro, de sangue, que em nenhum motivo deve preceder o toque, sem retoque. A análise do tal exame deve ser feita pelo Urologista, esculápio treinado em usar o dedo, mas que pode, em causa própria, adiar o exame. Uma vez feito por um colega, deve ser chumbo trocado. Ida e volta, sem medo de ser feliz.
A Urologia trata da próstata, e não da hemorróida, como muitos entendem. A especialidade cuida ainda dos rins (ante seus tumores e dilatações), das vias urinárias, como personalidades interligados o ureter e a bexiga, a uretra, com seus três seguimentos, a mais interna, a do meio e a última dos moicanos, onde se esconde a gonorréia, e outros parentes mais complicados de se tratar. A Urologia ainda cuida das disfunções do sexo, assunto complexo, que deve ser resolvido a dois, pois quando um não quer, dois não brigam. Outra atribuição da Urologia são os distúrbios da fertilidade, do macho, bom que se diga. A especialidade médica conhecida por Urologia é um ramo da cirurgia. O candidato a Urologista deve passar dois anos pela cirurgia geral, mais três na especialidade, que cada vez mais se aperfeiçoa, e avoa nas máquinas infernais. É a dinâmica cientifica, descobrirem-se recursos, os quais se provam eficientes, com o crivo do tempo.
Cinco anos são vencidos. Dois em cirurgia, três nas asas do dedo. O Urologista especialista deve trafegar com segurança pelos caminhos tortuosos da cirurgia do cálculo renal, saber removê-los com aparelhos que sabem percorrer caminhos estreitos, escuros, ir ao rim com desenvoltura, fragmentar cálculos com laser ou ultra-som, ou apreendê-los com cuidado extremo, para não lesar a parte mais fraca, as vias urinárias. Ainda como parte da sua sina, o Urologista deve saber tratar a criança quando ela urina na cama, e não aprendeu os bons modos. Deve entender de malformações congênitas, saber operar a Hipospádia, a Criptorquidia, e outros defeitos atávicos. Entre eles a Fimose. Deve navegar por mares nunca dantes navegados, ir com segurança pela impotência, sem, entretanto, mostrar ao mundo a dura inconfidência. Deve saber operar milagres através do transplante de rim, que pode devolver o sorriso, onde não se viu o riso. O Urologista deve ir pelos caminhos da Micro-cirurgia, para emendar os deferentes, que foram ligados pela vasectomia. O profissional do dedo empinado deve conhecer e ser parceiro das mazelas do sexo, ser confidente, amistoso, seguro, afável, como todo esculápio deve ser. Deve saber dizer não, quando a Litotripsia não é o melhor caminho, para não onerar ainda mais o bolso do pobre enfermo. Deve pelo menos tentar aprender a Laparoscopia, e retirar a doença por um buraco bem fininho, montado numas lentes poderosas, que só falta fazerem chover. Deve fazer cirurgia de Banco, consertar o rim sobre uma mesa, e devolvê-lo são e salvo ao corpo de onde foi retirado. Deve consolar quando a prostatectomia radical não salvou o doente da doença maligna, e saber encaminhá-lo ao colega Oncologista, para, quiçá, uma braquiterapia. E, sobretudo, apesar de conhecer as últimas conquistas da modernidade, nunca sepultar o bisturi, pois quem opera pode operar milagres, onde tudo começou, feliz.
Como disse, e passo adiante, o Urologista leva anos para ser forjado. E, quando o jovem profissional leva a sério o seu combate, aí sim, todos os esforços serão recompensados, com um final feliz... |
 ONSULTÓRIO VIRTUAL
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