As previsões do tempo de Chico Pinico

Aquela manhã de dez de novembro amanheceu com o céu azulinho.

De uma quentura de fazer frigir ovos na janela. Nenhuminha nuvem se podia ver. O sol amanheceu de bem com a vida depois de uma noite de amor com a lua cheia.

A chuva não caia por aquelas bandas desde quando Chico era ainda jovenzinho.

Garotinho esperto, que aprendeu a entender do tempo desde fez dez aninhos de aniversário.

Foi nessa idade, quando já na escola, começou meio tarde a aprender as primeiras letras do alfabeto. Parou pela metade, pois estudar não era com ele. Preferia estilingar alguma rolinha incauta que no pé de jabuticaba ouasse meter os pezinhos. E ela caia mortinha pronta a ser frita na frigideira da tia Ana. A qual fazia o papel de mãe e pai já que o menino não os tinha.

Chiquinho era tido na vizinhança como meio bruxinho. Desde Piniquinho não tinha parança.

Sua cabecinha meio ocada parecia viver no mundo da fantasia. E como era feio o garotinho. Seu nariz, quando fungava, de tão grande que era.  Acabava por tirar o ar de toda a periferia. Suas penas finas mal suportavam o peso da criança. Quando chegou aos dezoito, de altura não lhe davam mais de metro e mucado. De uma cabeleira de tão vasta que dava perfeitamente para fazer perucas pra todos os carecas do vilarejo.

Chiquinho, por não ter ocupação. Acordava bem cedinho pra ficar mais tempo à toa.

Caiu nas graças das pessoas não por ser bem apessoado. E sim por não se indispor com ninguém. Pessoinha simplesinha, de boa educação.

Ainda menino aprendeu com um tio torto. Amásio da sua tia Ana. A encontrar água naquela secura reinante usando uma varinha tortinha. O meninozinho moleque passava as manhãs ensolaradas brandindo aquela varinha até que ela vibrasse.  Não tardava muito e ele furava um pocinho de onde saía um liquido que se podia chamar de água.

Chico Pinico, não se sabe o porquê desse epíteto. Cresceu sem profissão. Dizia ser entendido em previsões do tempo sem ter estudado um tiquinho de meteorologia. Nome complicado pro seu parco entendimento.

Aprendeu, com a vida desregrada desde menino. A olhar o tempo olhando as nuvens. Se elas nasciam cinzentas se desse certo iria por certo chover. Se porventura de uma desventura as nuvens fossem branquinhas elas não seriam de algodão. E a chuva não iria cair do alto pra baixo.

Aprendeu a prever o tempo olhando as estrelas. Se alguma delas despencasse do firmamento elas não seriam estrelas cadentes e sim vagalumes errantes.

Se pela matina uma cigarra cantasse, seria indício certo de chuva e não um cigarro apaixonado querendo se acasalar.

Aos vinte e tantos anos Chico Pinico procurou ocupação. Cansado de viver à custa da tia Ana.  A qual tinha como sua verdadeira mãe. Saiu à luta numa caçada a cata de emprego.

Batia de porteira a porteira. Por não ter estudado, nem a escola frequentou um semestre pela metade. Chiquinho teve seu pedido indeferido. Nem por isso se sentiu ofendido. Acostumado a receber nãos pra ele não era novidade.

Mas continuou no seu propósito de conseguir ocupação por ser desocupado. Não tinha a pretensão, nem a previsão, de ganhar um polpudo salário.

“Qualquer merreca me serve. Pois sou de muitas serventias.”

Gabava-se ele exibindo sua grade curricular vazia.

Até que num dia ensolarado a sorte parecia lhe mostrar os dentes sorridentes.

Foi justamente num departamento de nome pomposo Clima tempo. Onde diziam entender de tudo inclusive do tempo.

Chiquinho enfim preparou-se para a entrevista. Leu de tudo um cadinho. Fora o que já sabia e era mestre e doutor. Sem nenhuma titulação que o indicasse.

E quando a moça do tempo a ele interrogou. Perguntando-lhe como ele sabia se naquele dia iria chover. E se, por acaso de um descaso, o sol de novo iria sapecar a terra já esturricada.

Chiquinho, com aquele ar de sabichão a ela respondeu: “muito fácil minha linda senhora. Quando acordo e abro a janela. E abro meus olhinhos tontos de sono. Se o céu está azul, com certeza não vai chover. E se, um monte de nuvens cinzentas tapam a boca do sol, ai a chuva vem, com certeza”.

Não sei a razão de o meu amigo Chico Pinico ter sido mais uma vez preterido. A sua resposta pra mim foi mais que acertada. Num é?

 

 

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