Era ainda cedinho quando meu amigo Manoel das Tantas e infindáveis quebradas deixou sua cama.
Foi numa segunda feira como essa que amanheceu nesse 23 de março desse ano que estamos atravessando.
Mais conhecido como Mané. Nomezinho simpático e fácil de pronunciar.
Mané, senhor respeitado pelos muitos anos de trabalho. O qual, a sua fábrica de autopeças nunca chegou atrasado. Pontualmente ali chegava vindo de longe, precisamente as seis da manhã.
Era funcionário exemplo a ser seguido. Prestativo e operoso que nunca se negava a ensinar aos colegas mais jovens os ossos do oficio.
Mas um dia ele pensou com seus pensamentos: “era chegada a hora de se aposentar por completo. Afinal quase uma vida inteira dedicada ao trabalho. Desdobrando-se em mil e centenas de atividades. Na fábrica era um faz tudo. Engraxava as máquinas de soldar. Fazia horas extras sem pensar no pago que deveria receber. Era tido pelos conhecidos como uma pessoinha da prateleira de cima quase impossível de se tocar”.
Ainda com a saúde de ferro sem pensar em enferrujar algum dia Mané decidiu ser chegado o tempo de dar um paro em sua vida de metalúrgico.
Afinal, naquele mês de março ele iria completar setenta. Cabelos brancos enfeitavam suas têmporas. Quase não tinha barriga, pois, além de ser módico nas refeições ainda se exercitava na academia.
Ele não se casou não por lhe faltarem pretendentes. Foi um jovem disputado pelas moçoilas casadoiras nos bons tempos de sua juventude extraviada quando estudava.
Por opção própria permaneceu solteiro. Não lhe faltavam mulheres com quem dividir as cobertas nas noites gélidas de inverno. Ou com quem dormir em conchinha desnudo quando o calor lhe açoitava os miolos.
Foi numa sexta feira o sucedido. Foi a um banco saber como andavam suas economias.
Ao retirar seu extrato assombrou-se com a quantidade de dinheiro que fazia engordar sua popança graúda. Eram mais de alguns milhões. Quantia que crescia a olheiras vistas.
O que fazer com tanta grana se nem tinha descendentes? Pra ele era muito. Mais que o necessário para viver os anos que lhe restavam confortavelmente.
Foi quando chegou de repente um conhecido de tempos recentes; um sujeito insistente que lhe parou à porta da casa bancária. Depois de um tapinha amigável nas costas ele pediu pra falar comigo.
“Meu amigo Manoel. Soube que você está prestes a se aposentar. Deve ter um bom dinheirinho guardado nesse banco. Não é hora de fazer um bom investimento? Como sabes sou corretor imobiliário especialista em propriedades rurícolas. Não pensas em se mudar pra roça? Acordar cedinho tendo como despertador o canto de um galo no galho mais alto de uma jabuticabeira? E ver uma galinha caipira cercada de seus pintainhos amarelinhos tentando protegê-los debaixo de suas asas da investida perigosa do bico do gavião?
A vida no campo é muito mais saudável que nas cidades. Você, meu preclaro amigo, vai viver muitos anos mais. Tenho uma oferta imperdível. Um sitiozinho pertinho de aqui da nossa cidade. De terra fértil e de boa topografia. De água com fartura e várias minas que nunca secam. Tem até uma cachoeirinha nos fundos daquela casinha tosca. São mais de dez alqueires de terra pra lá de boa.
E o sujeito que quer vender topa qualquer oferta. Segundo me disseram o tal está com a corda no pescoço.
Sabe por quanto ele quer vender a sua terrinha? Ele te dá a escritura por uns míseros quinhentos mil reais”.
Negócio fechado a compra foi efetivada.
Sô Mané retirou a importância do banco e pagou a vista sem perder de vista aquele sitiozinho nas bandas da minha rocinha.
Pra lá se mudou no dia seguinte. O caminhão de mudança parou na porteira descarregando a carga em alguns minutinhos apenas.
Sô Mané não sabia se ria ou chorava de tão feliz que se achava.
Agradeceu ao paizinho do céu por ter-lhe dado mais essa bem aventurança.
Naquela noite primeira fechou seus olhinhos claros e dormiu como um anjinho sem asas.
Acordou com um barulho estranho vindo do lado de fora da janela.
Mal teve tempo de vestir sua camisola costumeira.
Abriu a janela deixando um bando de maritacas palradeiras entrar casa adentro. Na sua morada não tinha luz. As danadas das bandidas das maritacas comeram toda a fiação por cima da laje.
E ali passou a imperar o império da escuridão.
Não bastasse tamanha desilusão Sô Mané ainda teve de contornar outro percalço.
De pés descalços saiu ao pasto sujismundo. Uma correição de formigas cortadeiras a ele deram bom dia. Que bom dia que nada! As danadinhas subiram seu corpo acima até o umbigo. E deixaram suas marquinhas de ferrões pontudos pelo seu corpo inteirinho.
Coitadinho do Seu Mané. Passou o resto daquele dia pensando em dias melhores que nunca viriam.
Outros foram ainda piores.
As minas secaram. Faltou água na sua rocinha até pra beber ou tomar de canequinha.
Foi ontem que nos encontramos na mesma praça em outro jardim.
Seu Mané me pareceu desolado, triste e acabrunhado.
Contou-me todo o ocorrido e me perguntou se eu queria comprar seu sítio.
Dizendo com sua vozinha anasalada: “olha meu amigo. Tive duas alegrias na minha vida. Naquela hora que comprei aquele sitio. E agora me alegrarei muito mais quando passar aquela coisa ruim adiante”.
E eu não tenho como discordar sem dar corda ao dito.
Quando vender a minha rocinha vai ser o dia mais feliz da minha vida.
MENTIRA. EU AMO AQUILO LÁ.
Se eu vender vai faltar causos pra eu contar.