Tomo como exemplo de gente que não enxerga desde o nascimento meu amigo Cláudio.
Não sei bem qual a enfermidade que o fez privar da visão.
Sei ainda que seu pai, outro amigo meu, Seu Zé Antonio, já falecido em tempos idos. Com os poucos recursos que tinha tudo fez para que seu filho não passasse a vida inteira na escuridão.
Cláudio, mesmo sem enxergar sabe e conhece, não sei se pela voz ou pelo odor, todos que lhe passam ao derredor. Nunca o vi de mau humor ou contrariado. Apesar de viver de olhos abertos sem ver o por do sol ou o dormir da lua, Cláudio, quando passo por ele, a caminho da minha rocinha, faço questão de parar a minha caminhonete branca quase sempre empoeirada ou enlameada, apeio por uns breves momentos e faço uma selfie ao seu lado.
Cláudio é um sujeito que vive sorrindo mesmo nas adversidades. Nunca o vi tristonho, cabisbaixo ou ensimesmado. Como todos nós ele deve ter seus instantes de introspecção e apatia. Ele caminha sempre pelas bandas de onde mora e conhece todas as veredas estradeiras mesmo em dias claros ou quando a escuridão domina. Sei ainda que elezinho é um piadista de boca cheia de dentes perfeitos. E, nos seus muitos anos já vividos não dispensa um rabo de saia e tudo aquilo que a sainha curtinha esconde por baixo de uma calcinha.
Nos dias de hoje, desde quando seu amado pai se despediu da vida. E sua mãezinha querida agora, ao seu não menos amado marido faz companhia no céu. Cláudio tornou-se um faz tudo naquela morada, quase um palminho de chão ao lado um curral onde bois são confinados; nos fundos de sua casinha sempre que por ali adentro se mostra limpinha, na sua hortinha não faltam jabuticabeiras vetustas sempre carregadinhas de jabuticabas madurinhas no tempo certo. E um munho d’água onde Cláudio moe grãos de milho duros e faz um fubazinho fininho, iguaria disputada pela vizinhança, numa troca justa como um dia comprovei.
Meu amigo de horas incertas de nome Cláudio sobre não sei. Enxerga, mesmo desprovido da visão. Cada buraco na estrada. Cada pedra em seu caminho. Cada centímetro metro e mucado ao caminhar estrada afora seja de dia ou em noites estreladas.
E como tem gente que não enxerga o que não quer ver.
Existem pessoas de visão acurada que não enxergam a um palmo do próprio nariz. E se for um narigão enorme então mesmo assim a vista embaralha mais ainda.
Essas pessoas são incapazes de ver, usando óculos para melhorar sua vista cansada, quem tem valor e quem não o tem. Elas ignoram aqueles que caminham ao seu lado sempre prontos a ajudar.
São afáveis e corteses com estranhos. E sempre carrancudos e indispostos aos que em verdade deveriam ser gratos.
Esse tipo de gente, que enxerga muito bem, quando não tem como norma de vida a gentileza e gratidão, no meu entender podem ver muito bem usando a vista perfeita de que são dotados. Mas são cegos de verdade por não enxergarem o óbvio, aquilo e aquiloutro que se mostra a um palmo do seu nariz. Não sabem diferenciar entre a água límpida que nasce de uma mina clarinha e outra água suja de barro vermelho resultado do pisoteio do gado que por ali afundou os cascos.
Cláudio aprendeu desde cedo a diferenciar e não fazer diferença entre as pessoas que com ele se cruzam. Conhece quem é quem pelo timbre de voz ou aperto de mãos. Ele não faz questão de que pessoas sejam amigos de verdade ou não. Ele, Cláudio os trata da mesma maneira gentil. Não franze o semblante quando apoquentado com algum problema e os enfrenta como sendo coisinhas menores.
Da-me pena. Dói-me por dentro ao ver gente enxergando perfeitamente não sabendo distinguir entre quem tem valor e outros menos.
Gostaria de ser como o Cláudio, que mesmo não enxergando desde menino, mas anda pra todo lado tateando na escuridão. Dando sorrisos gratuitamente aqueles que não sabem sorrir.
Contando piadas muitas engraçadas e outras nem tanto. Se gabando de ter pegado essa ou aqueloutra namorada sorrindo mesmo triste sem saber a razão.
Fato inconteste.
Tem gente que não enxerga o que não quer ver.
E não tenho dúvidas.
Mas Cláudio, mesmo não enxergando, aprecia muito o pouco que pode ver…