Durante essa noite passei pouco tempo deitado na cama e mais horas acordado assentado ao trono.
Não tive uma convivência nada amistosa com meu intestino. Se fosse vaca pastejando um capim viçoso, pasto alto depois de uma chuva de verão, poderia dizer que a insatisfação do meu intestino, que quase não me deixou dormir, gente da roça diria ser algo chamado de “piriri da brota”.
Creio que minha diarréia intestinal, não de palavras escritas, deve passar como passam as chuvas de verão. E não irei precisar me submeter de novo a um exame doloroso e indecoroso que já fiz tempos atrás, cujo nome é colonoscopia. Exame necessário que todo idoso e mais novo deve fazer para descartar qualquer patologia dos intestinos que, se não tratada em tempo hábil fatalmente pode abreviar nossa estada aqui na terra.
Tenho por mim que a vida em sociedade não é tarefa fácil como carpir uma grama recém aparada.
Viver bem, encomiando a bunda gorda da vizinha chata. Aquela mala sem alça que se acha a maior. Nádega essa que ocupa muito espaço e carece de comprar duas passagens de avião quando de classe econômica. Pois senão vai incomodar o vizinho do lado que se sente inibido ao ter de dizer a gorducha em sobrepeso: “por favor minha senhora. Você está usando uma parte do meu cinto de segurança. E faz uma lambança danada ao conferir suas grandes nádegas em meu assento. Vê se chega um cadinho pra lá senão vou chamar a aeromoça que não é tão moça assim”.
A vida da gente infelizmente tem de ser num amontoado de pessoas. O homem macho, não devemos nunca nos esquecer daquelas que mandam na gente, somos seres gregários e ainda dizem, equivocados, que unidos venceremos.
Eu, se dependesse de mim, viveria feliz numa ilha perdida no meio do oceano Índico. Não me importa o tamanho desde que não me faltassem bons livros pra ler e um notebook para escrever.
No dia de hoje, pós- feriado em honra e glória de Tiradentes, o mártir da independência, como já deixei escrito dantes passei a noite em claro com a luz apagada, sentindo-me como um rei assentado ao trono mesmo sem ser coroado, lá pelas bandas das quatro da madruga me olhei no espelho.
E me vi despenteado, com olheiras profundas, uma cara de sexta feira santa, pálido parecendo um lençol estendido no varal lavado com Omo.
E ao espelho inquiri: “espelho espelho feito em cacos. Existe, por essas beiradas, um escritor mais escrevinhador do que eu? E ainda te pergunto sem abusar da sua superfície alcagueta espelhada. Você sabe me dizer ou me indicar um bom urologista nessa cidade. Tenho de fazer exame da minha próstata. Já tentei me fazer um auto exame e não consegui pois meu dedo enxerido não alcançou a zona do agrião. Outra coisinha ainda lhe pergunto seu espelho que não é só meu e de outros mais. O senhor pode corrigir meus textos? São tantos que perdi a conta da quantidade que montam. De tantas crônicas que já escrevi não consigo achar um revisor que não cobre pela revisão. O senhor podia fazer a caridade de passar os olhos nos meus escritos, ir corrigindo meus senões, e, se não é pedir demais por favor, meu bom espelho, eu não aceito opiniões contrárias as minhas. Meu português é algo indescritivelmente lindo, como eu”.
Descarece dizer que o espelho se partiu em caquinhos miudinhos. E não fui eu quem o quebrou.
Uma vez aqui, onde estou no presente momento, ao tentar confabular com meus peixinhos aquarianos, lindinhos que são. Na tentativa inglória de tentar nadar entre eles. Antes que tirasse a roupa na intenção de nadar pelado. Um deles, o vermelhinho glutão, de nadadeiras em riste e com a boquinha entre aberta pra mim exclamou em altos brados: “olha pra mim seu palhaço metido a poeta. Eu não sou aquele espelho quebrado. Se você entrar pelado no meu aquário eu te capo e te parto ao meio. E escuta mais uma vez, de ouvidos atentos. Se você entrar aqui junto aos meus irmãos vamos dispensar a ração que você nos da de graça e vamos te comer vivinho da silva, embora saibamos que seu sobre é Rodarte de Abreu”.
A partir de hoje nossa convivência, que era muito amistosa e amorosa, passou a ser nada amigável.