“Nem tanto ao mar nem tanto à terra”.
Eu diria: “pra que amar tanto uma pessoa se ela não o ama como tu a amas”.
Pra tudo na vida deve-se ter comedimento.
Jamais tentar atravessar uma estrada em movimento. Para um cadinho, fica do lado olhando o trânsito enfurecido. Deixa o sinal ficar verde, se você confundir as cores perdido e desiludido entre o verde e vermelho dê-se um tempinho, respire bem no fundo dos seus pulmões. Deixa o ar entrar mesmo se estiver rarefeito. À beira da estrada movimentada, numa curva da encruzilhada. Olha pro meio dela e veja se ali tem um guarda da polícia rodoviária que talvez o possa ajudar naquela travessia que pode ser curtinha ou alongada como o abraço à distância de uma mãe irrequieta a espera do filho pródigo que retornou ao seu lar depois de uma ausência dolorida pelas estradas da vida. Sentindo-se perdido enraivecido no meio de um lago seco no meio do nada.
Tantas sandices, tantos estropícios, tantas divagações inúteis escritas antes de contar essa história daquele menino de nome Toninho, unzinho que nasceu sem querer já que não conheceu seu pai que deixou sua mãezinha embarrigada no meio de uma estradinha que não levava a lugar nenhum.
Toninho cresceu um cadinho naquele lugarzinho de nome incomum batizado de Luzinhas Apagadas.
Nem bem era uma cidade, um arraialzinho bem pequenininho. Fincado no meio de um pasto sujo no município de uma cidade de porte mediano de nome Francisco não sei de que.
Toninho cresceu meio abobado . Meio bobo não, bobão e babão por inteiro.
Além de zarolho, vesgo na expressão exata dessa palavra. Manquitola e funguento, pois elezinho só respirava por uma narina já que sofria de um desvio de septo no meio daquele narigão verrugoso. Toninho era mais feio que anu preto tinto em branco ao assustar-se com uma anua mais feia ainda que o próprio.
Na escolinha, daquele arraialzinho miudinho, Toninho dava um trabalhão danado às professoras. Dada a sua vesguice via tudo arrevesado. Confundia taturana com dona Tiana. Lia na lousa fria dia de luto e entendia dia de vestir preto. Era um aluno exemplo pros outros tudo aquilo que não deve ser copiado. Falava fanho, contava piadas sem graça e ria sozinho da falta de graça dos seus chistes.
Toninho só tinha umazinha coisinha a ser aplaudida pela turminha de bandidinhas das suas coleguinhas nada sadias. A maioria delazinhas não mais tinha seu selo de castidade intacto perdido anos antes no meio do mato.
Ele era bem comedido, tanto nos gastos, já que não tinha dinheiro no bolso nem escondido na cueca como certo político pego com a bunda cheia disso.
Avarento não era bem o termo. Mão de vaca era mais ou menos aquiloutro que deveriam entender de fato.
Toninho, bom menino até certo ponto da estrada, na curva da encruzilhada onde faziam macumba um dia parou a olhar o cenário.
Bonzinho Toninho era. Bobinho mais tonto que uma barata tonta que andava em ziguezague depois de respirar inseticida deixado de propósito pela cozinheira a fim de se ver livre daquele inseto repulsivo que mete medo até nas mais corajosas patroas metidas a valentonas.
E elezinho era passado pra trás em todas as catiras que fazia na escola à hora de folgar no recreio trocando figurinhas de jogadores que iriam disputar a copa do mundo de futebol certame esse a ser disputado em breve em três países limítrofes.
Bonzinho até mandar parar. Mais bobo que palhaço sem graça fazendo micagens no picadeiro de um circo em vias de abaixar as lonas e ir à bancarrota sem sequer arrotar.
Mas, sem sonegar a verdade que deve ser dita sempre mesmo que outrem digam o contrário.
Toninho, mesmo bem bobinho, de coraçãozinho generoso cheio de bons sentimentos.
Sentia-se um meio termo naquele dia em que nos encontramos na esquina daquela rua que não se cruza com avenida nenhuma.
Notei Toninho meio não, inteirinho esquisitinho. Ele não sorria nem se esquivava dos olhares de pena dos que por ele passavam.
Parei no meio do passeio pois, se parasse no meio da rua os carros me atropelariam.
Puxei prosa com Toninho desse jeitinho desajeitado: “e aí moleque! Tá tudo bem contigo? Tu continuas de bem com a vida? Ou tá na pior? Persistes na sua bobeira costumeira? Ou tá mais inteligente”?
Toninho, de costas pra mim voltou a sua cara feia na minha direção e soltou essa.
“Olha meu desafeto por quem não tenho nenhum afeto. Podem dizer que sou bonzinho. Que tenho bom coração. Mas de bobo nada tenho. Podem até me passar pra trás num negocinho. Mas me redimo noutro. Volto à carga naquela catira feita quando levei manta e passo manta naquele que pensa que seja eu o menos espertalhão. Podem me chamar de pessoa boa. Mas não permito que me chamem de bobalhão”.
Assim devemos ir na mesma mão na vida. Nem tanto ao mar nem tanto à terra.
Podemos ser bons, bobos nunca.
Melhor ser como o Toninho, um meio termo, nem quentes nem mornos, nem frios demais.