“Tem coisa mió que levantar bem cedinho. Abrir a janela devagarinho e, naquela manhã ensolarada deixar por ela o sol entrar de mansinho. Vestir minha bota cascuda de cano alto, aquela calça comprida que de tanto uso passa a andar sozinha, e uma camisa axadrezada meio furada na gola, não me esqueço de por debaixo aquela cueca samba canção de pouco uso e em breve vai cair em desuso. Tomar um cafezinho quentinho sem nada a acompanhá-lo, já que na roça pão é coisa rara; pois ali o padeiro não passa. E, já de fora de minha casa vou rapidinho ao curral onde deixei presa a minha égua pampa de menos de dez anos, creio eu. Dar a ela um balde cheinho de ração pra cavalo embora ela seja uma égua de boa garupa. Sair cavalgando pelas estradas sem rumo certo, estrada afora, num galope em marcha lenta para que minha amada égua não se canse muito. E na volta retirar de seu lombo suado a sela que agora cheira mal. Dar-lhe um bom banho de mangueira para a seguir alisar-lhe o pelo suarento. Retirar da sua boca cheinha de dentes um tanto amarelos aquele bridão que tanto a incomoda e deixá-la livre leve e soltinha a pastejar naquele pastinho forrado com o capim viçoso que ela tanto aprecia”.
Esse parágrafo enorme escrito por mim e passado adiante para meu amigo que comigo foi à roça ontem. Amigo de verdade que sempre atende ao meu pedido para me acompanhar nas cavalgadas já que ele, de nome Marcelo, pensa ser peão que quando esporeia a montaria e ela corcoveia e cai pra trás ele não se avexa e monta de novo. Foi no sábado dito ontem que passamos agradáveis momentos no lombo eu, na minha égua Felicidade e ele no meu cavalinho eunuco o Estrela, que recém comprei da minha esposa Rosa.
De fato deixo a vocês essa coisa que pra mim não tem melhor no mundo.
Andar de cavalo ou de égua, se tem coisa melhor não experimentei ainda.
Mocinhas e mocinhos da cidade podem dizer que ficaram de fiofó assado ao chegar de uma longa cavalgada. Mas passem Gelol que a dor logo passa.
O meu não ficou pior que hoje está. Já nesse domingo cedinho saí da cama antes das seis e fui caminhando lento até a padaria onde a Moça Girafenta do Caixa trabalha há anos perdidos no tempo.
Durante a noite, que para mim cada vez mais encurtece, pensei no que escrever no dia de hoje.
A excelente cavalgada em dupla com meu amigo Marcelo da dona Rose acabou me inspirando sobre qual nome dar a minha crônica de agora cedo.
Éguas e cavalos sempre os tive em alto conceito. Assim como tenho pelas vacas e touros o mesmo carinho e respeito.
E como o sinhozinho Zito ama a sua égua. Um amor desde cedinho quando pela vez primeira teve a sua iniciação sexual. Foi com a mesma égua trotona ao cupim não pensando ainda em fazer amor. Mas aquele matelzinho logo o fez pensar em namorar a sua égua novinha, ainda virginal que até então não havia piscado pra nenhum garanhão inteiro que não perdoava nenhuma égua no cio.
Zitinho, menininho espertinho, que morava na rocinha dos seus pais e poucas vezes ia a cidade. Desmontou de sua eguinha montada à pelo, fez-lhe um carinho no traseiro, beijou-lhe o focinho friozinho, e com elazinha fez sexo. Aquela cópula durou menos que a florada dos ipês que começam a florescer lá pelo mês de julho agosto.
Zitinho se transformou inconformado em seu Zito.
E, ao invés de comprar uma bicicleta teve a infelicidade de se casar com uma mulher que só lhe deu azar na vida.
A dona Tiana era uma mala sem alça para ser carregada. Ao revés de ser um achado era um machado sem cabo onde pegar.
Além de feia era zaroia. Mancava da única perna que tinha, a esquerda.
Dona Tiana de tanta pança fugia às carreiras das balanças.
Gorda não era bem o termo, e sim obesa mais que uma aliá prestes a expelir a cria.
O pobre seu Zito não aguentava mais viver ao lado daquela megera encardida, pois ela não tinha o costume de se banhar nem na bacia.
Foi depois de uma cavalgada que nos encontramos pertinho da porteira velha e caindo aos pedaços.
Seu Zito estava mais que desolado. Triste e acabrunhado, desiludido por ter ao seu lado uma mulher que só lhe trazia desgraça.
Ele desapiou de sua égua a qual amava mais que a si mesmo.
Deu-lhe uma afagada na bunda marrom e um beijo demorado no focinho.
Não a levou ao cupim, pois ele estava cheinho de cupinzinhos novinhos.
Já sabendo de antemão que ele não suportava mais a dona Tiana a ele perguntei: “meu amigo Zito. Voismecê, se ainda tem voz, me responda. Você prefere a sua esposa, a veia Tiana, ou a sua égua marchadeira?
A resposta vocês vão saber quando lerem o título.