Da mesma forma que a dor é inevitável e o sofrimento opcional.
Eu deixo escrito: “o envelhecer é da mesma maneira inevitável. No entanto sofrer por isso não se deve deixar escrito. Já que ser velho muitas vezes não quer dizer padecer no paraíso. Já que muitos padecem de uma velhice lotada de enfermidades. Preso a um leito de hospital. Felizes daqueles que têm por detrás de seus cabelos brancos uma família unida que lhes da suporte e um bom plano de saúde que lhes cobre as despesas da internação que por vezes se alonga até o momento final”.
A senilitude não deve ser encarada como uma cruz pesada que faz vergar nossos ombros.
Devemos nos sentir felizes por termos feito tudo que deixamos atrás. Nosso legado, aquilo que deixamos aos nossos descendentes pode não ser tão valorizado. A casa onde moramos, e dela só restam escombros. A nossa rocinha que tanto ainda amamos. Nossos filhos e netos, aqueles que nunca deram importância as nossas vacas baldeiras, que jamais se preocuparam com nossa saúde que mais e mais definha. Que raras vezes fizeram a nossa vontade de nos acompanhar em nossas idas àquele pedaço de pasto sujo infestado de cobras peçonhentas e carrapatos sanguessugas. Que viraram as costas ao nosso prazer de andar de barco represa afora numa boa pescaria de molinete atirados em direção aonde presumíamos estar tucunarés e traíras bocudas mordedoras em nossas iscas feitas com todo capricho.
Ainda não me tenho como velho. Sou contrário a quem afirma que em nosso país é tido como idoso todo aquele que ultrapassou os sessenta. Eu, aos setenta e seis, sou tão jovem, mais esperto e sábio quando com meus dezoito e ainda menos. Certo que uso das minhas prerrogativas devidas à idade. Não pago condução pra me deslocar dentro da minha cidade. Pago meia entrada no cinema e em outras atividades culturais. Tenho um lugar especial na fila dita preferencial. Embora muitos jovens não respeitem os meus direitos não tenho do que me queixar quando eles assim procedem deseducadamente.
Depois de ter chegado a essa idade relevo tudo aquilo que não me diz respeito. Falar da vida alheia tenho o cuidado de encher meus ouvidos de areia para não escutar tamanhas besteiras.
Depois dos sessenta, que já se foram já há dezesseis anos. Não me sinto a vontade quando pessoas pouco eruditas proseiam boquirrotas sobre assuntos tais como futebol, política e religião. Se elas, depois de mais lidas e eruditas, decidirem conversar sobre literatura, aí sim me achego a elas.
Depois de certa idade relevo e elevo tudo aquilo e aquiloutro que porventura de uma desventura disserem mal ou bem sobre minha pessoinha. Se me chamarem de Paulinho não fico zangado ou injuriado. Se outra pessoa me chamar na rua de Doutor Paulo Rodarte, médico ou escritor, da mesma maneira não o chamo pra briga e não me sinto contrariado.
Na idade que alcancei agora não resisto quando leio alguma coisa relativa ao passado. Tento voltar a ele. A casa onde morei juntinho aos meus pais. Aquela rua de tantas lembranças eternas de nome Costa Pereira. Remeto-me aos amigos da infância que infelizmente não volta mais.
Nessa idade, pra muitos fora da realidade, embora ainda me tenho como criança jogando bolinhas de gude, dando tapas nas figurinhas para virá-las do avesso, fincando fincas pontudas na terra molhada, soltando pipas na intenção de vê-las subindo aos céus. Talvez seja a única maneira de voltar sem me revoltar a ser criança de novo.
Depois de certa idade infelizmente não posso mais voltar à mocidade. Ela se foi nas asas velozes do tempo. Deixou saudades imensas. Mas tenho de me contentar e aceitar a cruel realidade. Estou na idade de fazer caridade não comigo e sim aos outros que mais precisam de minha ajuda. Sinto-me pronto a ajudar. Disponho-me a ensinar aos jovens meninos a dirimir ou diminuir suas dúvidas e indefinições. Tenho bastante experiência como médico urologista. Aprendi, nesses meus cinquenta e um anos de graduado a ouvir mais e retardar mais ainda os diagnósticos e tratamentos. Hoje trato os pacientes e não as doenças que eles se queixam.
Depois de certa idade não mais tenho vaidades. Pra mim tanto faz se meu cabelo está despenteado ou bem alinhado. Já que os tenho bem ralos e brancos quase na totalidade.
Nos muitos anos que me olham com olhares de piedade e comiseração. Se meus anos muitos me perguntam o que acho de viver muito tempo mais eu respondo com convicção de muitos anos vividos: “ah! Ainda não vivi o bastante. Permita-me viver até quando eu puder deixar escritos e publicados mais duas dezenas de livros. Agora já editei cerca de vinte e três, prestes a ver mais um filho livro nascer e mais um romance Ucrânia vendo feliz essa guerra sangrenta ter fim”.
Não estou me despedindo e sim me despindo frente a vocês. Tento ser verdadeiro e fiel nos meus escritos.
Depois de certa idade não vale a pena sonegar com a verdade nem mentir aos meus amigos.