O sonho da pequena Ana

Desde quando nascida em casa, sob cuidados de uma parteira amiga, dona Zizi, Aninha demorou um tempão para chorar.

Não se sabia ainda, naqueles tempos que se despediram faz tempo. Nas minhas lembranças tardias tanto tempo que nem me lembro mais, quando um bebê demorava muito para chorar a parteira dizia aquela mãe assaz preocupada: “não ser apoquente muito dona. O seu bebezinho demorou a chorar devido a ter aberto os olhinhos pra esse mundo tão triste e difícil e deu de si não chorar para não complicar ainda mais a situação calamitosa em que a gente vive sempre preocupados com o dia seguinte já que nossos rendimentos são tão parcos que não dão para pagar as contas e nosso salário termina nem bem começou.”

Aninha, ainda novinha recém posta no mundo, uma criancinha linda e pequenininha, sua altura não chegava a metro nem um mucado e seu peso mal era medido na balança de tão levinho que era.

Muitos da vizinhança acreditavam piamente que essa adorável criancinha não iria passar do dia seguinte de tão fraquinha que veio a descobrir a imundice desse mundão agreste.

Mas ela resistiu indefesa sendo criada debaixo de uma mesinha que mal tinha um palmo de altura. Sendo que aos cinco aninhos era tida como uma anãzinha diminuta.

Aos dez não atingia a altura de uma saracura naniquinha.

E assim passearam os anos em meio a desenganos intermináveis.

Aninha não crescia apesar de sua mãezinha tudo fazer para que elazinha não sofresse bullyng na escolinha.

A mãe que amava sua filhinha mais que a si mesma ajuntou todas as suas economias retiradas de seu porquinho cofrinho e marcou uma consulta com um médico especialista em crescimento. Aquele conceituado doutor tinha uma agenda lotada pro mês inteiro.

Por sorte uma amiga chegada da mãe de Aninha enfim conseguiu marcar a consulta para uma sexta feira quase final de expediente.  Era uma senhora de muito expediente ágil como uma corsa tentando escapar do bote de uma cobra peçonhenta.

Consulta marcada faltava juntar grana para pagar a entrevista com o tal doutor entendedor de pessoinhas naniquinhas como a pequetita Aninha.

A consulta ajuntada ao tratamento de nada resolveu.  Ela durou menos que a florada dos ipês.

E o preço não foi nada conveniente e quase fez a mãe desmaiar de tão assustada.

Aninha continuou da altura de um anãozinho dos menores que um circo de picadeiro já havia visto dantes.

Aos  doze mal alcançava meio metro.

Foi ontem que a vi ao meio de suas coleguinhas jogadoras de vôlei no time daquele clube o qual sempre frequento ao cair das tardes.

Apresentei-me a elas através do meu site paulorodarte.com.

E fiz um breve interrogatório àquelas mocinhas simpatiquinhas demais.

“O que vocês gostariam de ser quando crescerem”?

O grupinho era de dez meninas, a mais baixinha e pequeninha era Aninha.

As idades oscilavam entre doze e dez anos.

Lindinhas e alegres elas todas aceitaram de bom agrado as minhas indagações.

Quase a totalidade das meninas me respondeu que gostariam de ser médicas ou advogadas.

Umazinha só me disse que queria ser professora de português.

Não me alonguei muito nas perguntas, pois, já era tarde, quase a lua bocejando de sono lá no alto.

Foi a vez de Aninha dar a sua resposta: “eu quero ser jogadora de vôlei que da mais dinheiro que médicos, advogados ou professores”.

Admirado e de certa forma surpreso com a resposta na ponta da língua da baixinha Aninha duvidei do sucesso da sua pretensão de ser no futuro incerto uma jogadora de vôlei famosa disputada por clubes inclusive do exterior.

No entanto pude ver, com olhos incrédulos, que o sonho de Aninha foi concretizado.

Ela, aos dezoito se tornou de fato uma jogadora famosa e cobiçada por uma infinidade de clubes de nosso país e de fora.

As manchetes dos jornais diziam em letras maiúsculas na primeira página: “A JOGADORA ANINH A VOLTOU A SER A MELHOR DO SEU TIME NO ÚLTIMO CONFRONTO COM UM TIME DA RÚSSIA. E SABEM COMO ELA COMPENSA SUA BAIXA ESTATURA? EM CONSÓRCIO COM UM CANGURU NANICO ELA SALTA BEM MAIS ALTO QUE A REDE E DA CADA CORTADA QUE NEM EU DUVIDO”.

Sonhar é preciso e fundamental para se dar bem na vida.

No caso da baixinha Aninha seu sonho foi feito real graças à ajudinha de um canguruzinho amigo.

 

 

 

 

 

 

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