Sabido e ressabiado que quem tem boca suja fala nome feio.
E aqueles desprovidos de pernas pode andar amuletado.
Outro fato inconteste foi-me dito um dia e eu deixei escrito: “nada como um bom livro impresso para lhe fazer companhia. Esses pobres coitados podem dizer que estão com seus dias contados. E que a internet, celulares e tablets nas mãos de crianças entendoras do assunto, ou até mesmo livros digitais acabam matando aqueles nascidos em editoras pra mim são símiles a maternidades onde nascem crianças. Pois nada me da maior prazer como receber um livro novinho, lindamente encapado, com a grossura de um filhinho bem gordinho amparado nos braços de um pai desajeitado que acolhe com carinho seu primogênito.
Dias antes do de hoje, usando as pernas próprias como de costume. Vindo não sei donde. Com certeza absurda não apeei de um bonde já que na minha amada Lavras não anda mais.
Apressado para chegar ao meu apartamento que ficava bem pertinho no momento. Com o estômago ronronando como um gato persa se esfregando na almofada novinha da poltrona da madama.
Ao passar pela praça principal da minha cidade ouvi uma vozinha afinada vindo do meu ladinho esquerdo.
“Doutor Paulo Rodarte, o senhor sempre apressado. Aquiete-se um cadiquinho. Sinta nos olhos essa vista maravilhosa das árvores mais que centenárias que te olham admiradas lá do alto. Num galho mais fino de uma delas canta um passarinho. Penso ser ela ou elezinho um dos pais dos filhotinhos que estão prestes a saírem do ninho com asinhas despreparadas para voar. Admire também as criancinhas aprendendo a andar sozinhas vigiadas bem de perto por suas cuidadoras mães. Não se apresse tanto. Não se recorda de mim? Meu nome é Elias enfermeiro aposentado não da vida ainda. Fomos companheiros de trabalho no posto de saúde conhecido por Chacrinha. O senhor era tido, tanto pelos pacientes, como por nós enfermeiros, um médico voluntarioso, apressado, durão e de certa forma mal educado que não tinha tempo pra nada. Nem olhava na nossa cara. Assinava o livro de ponto, atendia os consultantes e saía apressadinho subindo a rua, pisando duro o chão com seus tênis de solado macio, nem dizia bom dia aqueles com quem cruzava. E como o senhor mudou da água suja para uma taça de um bom e refinado vinho de ótima cepa. Hoje as pessoas te olham com outros olhares. E dizem por aí e não se cansam de repetir: “como o doutor Paulo Rodarte mudou de comportamento. Dantes ele nem se lixava com a gente e passava indiferente sempre consumido pela pressa do afogadilho.
Agora pude comprovar, nesse nosso reencontro não agendado nem com horário marcado. Ao vê-lo com os mesmos olhos que enxergam outra pessoa mais afável, mais cordata, mais prestimoso a ouvir e disposto a ajudar a quem precisa. Agorinha mesmo nos vimos cercados de meninos uniformizados com o uniforme de um dos colégios de nossa cidade a te saudarem com esses dizeres cheinhos de alegria e admiração por sua pessoinha erudita e ao mesmo tempo simplesinha: “doutor Paulo Rodarte. Esse aqui tem fimose. Esse outro tem namoradinha, mas tem vergonha de se declarar a elazinha. O senhor vai lançar seu novo livro no LTC na próxima sexta feira né? Vamos estar todos no lançamento”.
Despedi-me do Elias pensando no que ele havia dito. Que pessoa inteligente e entendida nos assuntos rotineiros que nos fazem pensar.
De fato vesti minha carapuça embora não usasse uma.
Como os anos amolecem a gente.
Como a idade, os cabelos brancos, o caminhar trôpego e claudicante cambaleante podem nos transformar de pessoas irritadiças, mal humoradas e atabalhoadas, que não proseiam e nem param nas ruas quando pessoas boas como meu velho novo amigo Elias enfermeiro aposentado que militou comigo naquele postinho aonde ia sempre, e num piscar dolhos atendia mal e mal, assinava o ponto e não esquentava meu traseiro naquela cadeira manquitola naquela salinha acanhada de onde deixei pacientes dizendo terem sido mal atendidos e outros nem tanto.
Já hoje, dias depois do encontro com Elias naquele cantinho da Praça Doutor Augusto Silva, de ele ter-me aberto os olhos que dantes estavam cerrados. De ouvir no meu celular as mensagens inspiradas que ele me manda.
Tenho, aqui nos meus pensamentos que vagueiam de flor em flor como as borboletas. Qual seria uma das razões dessa metamorfose que se deu em mim?
A minha melhora de atitudes e comportamentais seriam explicadas apenas e tão somente pela idade provecta embora me sinta como menino?
Ou até mesmo pela fase boa em que me acho nesses meus setenta e sei quase sete?
Ou pelo simples fato dessa minha compulsão por escrever?
Dantes, no começo e no meio da minha vida profissional, assoberbado de trabalho, morando naquela casona meio longe de onde estou, sempre me deslocava usando meu Chevetinho azul marinho que rodava de hospital a outro sem parança.
Não tinha o costume de mandar minhas pernas andarem tanto quanto meus dois pezinhos sofrem de tantos calos que têm.
Hoje, quase na outra hora de minha vida, se me virem andado de carro me multem e me façam advertências.
Me punam como um presidiário na cadeia. Apitem se meu carro entrar na contramão.
Por que mudei tanto como disse o Elias do posto da Chacrinha?
Por que, nesse momento em que estamos, quase não posso mais andar nas ruas.
Diria eu: “não posso andar nas ruas senão os carros me atropelam e por isso tenho de andar nos passeios”.
Mudei da água suja para uma água limpinha por essa singela razão.
Graças as minhas pernas andejas fiquei de bem comigo…