Foi-se o tempo…

São passados menos de um segundo desde que liguei esse computador.
Agora mais quase um minuto se foi desde que comecei a escrever esse texto.
A palavra tempo tem algumas conotações.
Tanto pode exprimir a passagem dos anos, as horas, meses que deixaram rastro, e ao mesmo tempo, lá venho eu deixar escrito novamente tempo. Não há como nos desvencilharmos dele. Ele passa, envelhecemos, deixamos a mocidade olhando pra ela com olhos rasos de saudades. E a infância, então, nem se fala. A minha já se foi há tanto tempo que quase nem me lembro dela, passada e repassada a limpo, não tão limpinha como quando euzinho voltava a minha casa, aquela de número 152, logo defronte ao velho hospital de nome Vaz Monteiro, à porta desse clube que nasceu um mês exato após meu nascimento. E eu não tão limpinho e sim bem sujinho, depois da pelada naquele campinho cambeta, ele morava na rua de baixo. E bem me lembro das reprimendas educadas da minha mãezinha que me esperava na porta da cozinha com uma fala que dizia mais ou menos isso: “Paulinho, por que você se atrasou tanto? Não te recomendei que chegasse às onze horas? E você me chega a essa hora, sujismundo como um porquinho enlameado, e ainda tens de tomar seu banho, fazer os deveres da escola, almoçar, vestir seu uniforme e pegar a lotação pra ir ao colégio”?
E euzinho malandrinho não emendava e ia à escola, naqueles tempos idos, pensando comigo mesmo as mesmices de sempre. Como era bonita aquela coleguinha que assentava e cruzava as perninhas moreninhas na intenção pecaminosa de deixar a mostra cor da sua calcinha e por vezes ela nem usava.
E mais uma vez deixo escrito essa palavra de poucas letras e que nos deixa tantas saudades- tempo.
Tempo tem outras conotações.
Que tempo feio amanheceu nesse dia de hoje.
Aqui cheguei trinta minutos antes das seis. Um friozinho maroto me convidou a permanecer na cama. Mas como de rotina dela pulei.
Ao deixar meu apartamento o céu se mostrava escuro. Poças d’água rasas mostravam que deve ter chovido durante a noite.
O tempo ainda continua taciturno e sombrio. Emburrado, desconheço o motivo.
Não sei o que fazer para alegrar o tempo. Quem sabe sorrindo pra ele ele sorria pra mim.
Teria o tempo dentes? Para que ele pudesse sorrir não desdentado demonstrando seu contentamento?
Tempo, como dar tempo a ele? Se ele tem tanta pressa?
Teria um jeito de dizer e pedir aos ponteiros do relógio que eles mudassem seu itinerário?
Ao revés de andarem lépidos no sentido horário eles retrocedessem?
O tempo na manhã de hoje conspira contra minha felicidade.
Não gosto de dias como amanheceu nessa manhã manhosa de 22 de maio. Sinto-me entristecido, macambúzio, perdido em devaneios cinzentos.
Como aprecio acordar em manhãs ensolaradas de céu azul, a temperatura pode ser friorenta como em dias invernais.
Dias cinzentos me acinzentam a alma. Ela e eu apreciamos dias risonhos, com o sol já desperto mostrando seu sorriso amarelo de puro contentamento.
E como o tempo passa veloz.
Ontem mesmo contava com setenta e cinco.
Em sete de dezembro passado adicionei mais um. No próximo sete estarei setenta e oito.
Comecei essa crônica as cinco e meia. Agora já é quase uma hora depois.
Foi-se, não foice, aquele instrumento usado pra foiçar pastaria.
Serelepes minutos perdidos escrevendo mais uma crônica das mais de vinte mil já deixadas arquivadas aqui nesse meu computador sofredor.
Foi-se o tempo da minha meninice peralta.
Foram-se os anos que deixaram marcas aqui dentro.
E quantos mais aqui estarei?
Não interessa contar anos.
Foram-se tantos que acabei perdendo a conta.

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