Por que rico ri á toa?

Hoje, agorinha mesmo, me olhei no espelho.

Não foi para pentear ou dar um jeito naquilo que não tem jeito.

O alcagueta do tal espelho, vendo minha imagem refletida, disse entre cacos já que o quebrei em mil estilhaços: “oia aqui meu veinho. Tu não tens mais cabelos. Os poucos que lhe restam embranqueceram. Um cadinho de pelos se deixam ver em suas têmporas, mais brancos que algodão doce salgado. Se é que é possível né? Onde já se viu escrever que algodão doce pode ser salgado? Só você mesmo seu metido a escritor Paulo Rodarte”.

Voltando as vacas gordas, longe delas dizer que estão em dieta. Também, com esta pastaria verdinha depois da chuvarada que anda desabando do alto. Vacas se esbaldam lotando baldes, debalde dizer que a chuva não é bem linda.

Quando me olhei no espelho não foi para dizer bom dia ou boa tarde a ele. E nem para dizer-lhe  para não mentir  sobre a minha idade.  Já dobrei a serra e estou na descendente. Se disser que me faltam dentes minto. Não uso prótese dentária. Nem tenho receio de esquecer minha dentadura molinha dentro de um copo d’água. Nem mesmo de entrar numa farmácia e perguntar a balconista, que não mora dentro do balcão. A procura daquela pílula milagreira que promete alavancar defunto morto a ver se ele levanta a hora que mais carece. Mas o grande problema que ando meio não, esquecido por inteiro. E ao me dirigir a ela não me lembro mais a razão pela qual ali cheguei e acabei trocando o nome do Viagra pelo Sonrisal, que ao cair na água borbulha tal e qual um peixinho se afogando por não saber nadar.

A cavalo dado não se olham os dentes. Quando me olhei no espelho foi exatamente para, pelos dentes que ainda tenho, queria saber qual a minha idade.

Zé Taturana, ajuntado com a dona Dorotéia Banguela Branquela.

Além de não ter um dente são a sorrir na sua boca desdentada. Era de uma pobreza e ausência total de lindeza de fazer sacristão fugir às léguas de dar confissão.

Zé, sobre Taturana não sei bem a razão.  Desconfio ser por uma razão simplesinha.

Quando meninote ainda, andando descalço pelas veredas da roça de seu avozinho.

Acabou pisando numa taturana cachorrinha daquelazinhas bem venenosas como a linguaruda da sua tia Margarida. E logo sua pisadura inflamou. Deu upa para sarar a ferida. Foi preciso tomar um chá de descarrego e uma benzedura funda de uma benzedeira que vivia de fazer mandingas atrás da porta para afastar os vizinhos malas.

Zé, ao revés do tio Patinhas, aquele pato que nadava em dinheiro, não tinha um tostão inteiro no seu bolso remendado.

Se não bastasse tanta desgraceira Zé, além de mais feio que assombração zaroio, era mais quebrado que arroz de quinta categoria.

Vivia de desfavor na casa alugada de uma tia torta. E, quando ela lhe perguntava quando ele ia ajudar a pagar o aluguel ele vinha com essa: “ tenho um parente que tem no sobre Abreu. Se meu parente não pagar nem eu”.

Eu nunca vi o Zé sorrir. Não sabia, ate então, a razão.

Ele vivia acabrunhado atrás de suas cabras sumidas desde o último carnaval.

Até parecia que pra ele o mundo imundo estava acabando. Não via a luzinha ao final da estrada.

Foi um dia desses que nos desencontramos. Eu ia e ele voltava não sei donde. Quem sabe esperando o bonde.

Apiedei-me dele. Achei-o desguarnecido de alegria imerso em tristeza purinha.

Como sempre Zé não sorria. Ao revés do meu primo rico Tião que exalava riqueza por todos os poros.

Até parecia que ele suava ouro. De tão ictérico que ele ficava quando se exercitava.

No nosso encontro acabei por perguntar ao Zé.

Por que razão rico ri à toa? Seria por que ele, por ser rico, fica mais tempo á toinha da silva?

Zé continuou sem sorrir. E nem abriu a boca desdentada para falar comigo.

Sem resposta acabei por inquirir ao espelho:  “Por que, meu amigo espelhudo”?

O espelho riu de mim e completou a resposta desse jeito sem jeito: “rico ri à toa por ter dentes perfeitos. Você já viu a boca do Zé? Num tem dente nenhum em cima nem em baixo”.

No dia seguinte ao de hoje, domingo doze de abril, na segunda com certeza vou procurar minha dentista. Tomara ela tenha hora pra mim…

 

 

 

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