Aprendi a engolir sapos

Dura e real realidade: com o tempo a gente acaba aprendendo a ser mais macio, aguentar trancos, deixar as ofensas secarem para depois do barro secar pensar em responder as agressões, pensar duas ou mais vezes antes de dar uma porrada em quem nos deu, responder malcriadamente aqueles garotinhos sapecas que um dia disseram que eu era feio e velhusco, dar uma resposta malcriada aquela turma de jovens que disseram ser eu velho e fora de uso, e, depois de tantos anos e desenganos, aprendi que não se deve ficar irritado simplesmente por outros intranquilos, assentados a um banco capenga daquela pracinha no centro da minha cidade, ao zombarem de mim aquele banco desequilibrado tombou pro outro lado deixando todos eles com as bundas no chão duro de cimento cascudo.

Não que sejam os sapos, batráquios inofensivos que um dia bem me lembro, encontrei um deles, barrigudo, nadando de costas na minha piscina limpinha na minha rocinha, piscininha essa que quase não uso salvo nos dias de intenso calorão. E, meu querido e boquirroto caseiro Tom Zé, ao pilhar em fragrante delito esse sapão sossegado nadando na minha piscina, deu-lhe um tranco jogando-o a uns trinta metros de distância. Se pensam que esse batráquio morreu na queda engano seus. O danadinho, caidão de amor por uma ranzinha gordinha e gostosinha, com elazinha fez amor deixando uma prole de centenas de girinos a nadar em outra represa de águas barrentas conhecida por  represa do Funil.

Por favor, não matem nem façam mal aos sapos. Eles são seres desprovidos de maldade. Sapos têm uma dieta bem distinta da nossa. Eles comem besouros e outros insetos mais. Ainda lhes peço, de joelhos se for preciso. Não joguem sal nos seus costados. É um ato de extrema crueldade que lhes causa sofrimento intenso levando-os a desidratação e morte por asfixia rapidamente e dolorosamente.

A fazer dos sapos parte da minha dieta prefiro comer rãs fritinhas a milanesa ou do que seja.

Já engolir sapos tem pra mim outro significado.

Quer dizer, no meu estulto entender, qual seja suportar, aceitar ou tolerar situações desagradáveis, ofensivas ou injustas sem reclamar ou revidar. E, a mercê de tais situações manter a compostura e fazer de conta que nada daquilo o ofendeu. Permanecer impávido com seu colosso imóvel tal e qual uma bandeira desfraldada a meio pau numa ventania ventosa.

É pra mim uma irrefutável verdade quando deixo escrito que com o tempo passando, com a idade provecta chegando, a gente se torna indiferente ao tamanho do sapo que temos de ingerir.

Já anunciei que estou prestes a lançar mais um livro. Não um romance como foi com Rakel que muitos já leram ou simplesmente disseram a mim que apreciaram ou não.

Outros já deixei escritos. Não irei nomeá-los a todos para não encompridar muito esse texto dessa manhã dezesseis de abril. Linda e ensolarada por sinal.

Outro romance já está longe de terminar cujo titulo é Ucrania com acento circunflexo no primeiro a.

Como pra mim é gostoso e de bom paladar escrevinhar. Tanto crônicas como historinhas mais longas que têm começo meio e fim.

Ver um livro impresso e terminado pra mim não tem prazer que se equivalha.

Comparo um livro recém saído da editora, a qual chamo maternidade, como se fosse a alegria e felicidade de amparar o primeiro filho nos braços. Mesmo que ele esteja sujinho imundinho do liquido placentário.

Mas, aprendi, com os anos, a engolir boca abaixo tanto sapos como pererecas que coaxam ao serem aprisionadas entre nossos dedos.

Uma vez tendo nossos livros em mãos agora infelizmente temos de vendê-los por um preço que acho justo. E pasmem! Tem gente que acha que, mesmo recebendo um bom livro sem pagar nada acha caro comprar um exemplar de livro de graça. O que pensam ocês?

Vamos supor, não entendam supositório, que é aquilo que dantes me enfiaram no traseiro quando carecia de evacuar as fezes duras e elas não saíam a contento.

Uma vez os livros nascidos eu tenho de programar o lançamento, mais uma dúzia de sapões que tenho de engolir boca abaixo até meu estômago de avestruz faminto.

Urge e ruge o leão que mora em mim escolher o local da efeméride.

Naquele espaço, pra mim adequado, custa os olhos da cara e me da olheiras de tanto cansaço.

Noutro, escolhido a dedo não pode também. Acontece mais um detalhe imprevisto. Não sou sócio daquele clube onde tanto amo praticar esportes.

Quantos sapos ainda tenho de comer para enfim lançar meu vigésimo terceiro livro, uma coletânea de crônicas de nome O CANTO DAS CIGARRAS. E elas ainda nem cantaram, pois estão a espera de um macho para se acasalarem.

Livro pronto e ainda tenho de engolir mais um batráquio quando o lugar do lançamento já estiver enfim alugado e custa caro mandar imprimir os convites.

Ai meu bom paizinho do céu,.me ajuda mais uma vezinha só.

São duzentos livros encomendados. Ao lançamento compareceram uns gatos pingados apenas.  Nem a undécima  parte do que previra. E ainda, não bastasse tantos sapos engolidos em jejum, ainda nem tomei meu cafezinho magrinho. Conto e reconto aqui, na minha estante por detrás de mim, milhares de livros encalhados, a espera de serem desovados num mar qualquer.

Verdade de verdade verdadeira e não uma besteira qualquer.

A gente, com o tempo aprende a engolir e digerir sapos e pererecas.

Mas convenhamos. Engolir livros não é tão fácil assim…

 

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