Aprendi como norma de conduta na minha vasta experiência de vivencia: “boca fechada e ouvidos atentos para uma boa convivência”.
Tem gente que diz muito e nada acrescenta. Já outros de bocas fechadas e em silêncio nos ensinam muito já que sabem ouvir.
Eu penso que enxergar bem é essencial para ter uma vida linda vendo as flores desabrocharem, os patinhos serelepes nadarem, mãos de namorados se engalfinharem, velhinhos, com seus olhares vazios perdidos no meio do nada dizerem as suas velhinhas: “como ainda te amo quando ainda eras bem mocinha. Se por acaso de um descaso morreres algum dia morrerei no dia seguinte de saudades de você”.
E sobre o tal cascudinho? Quem seria esse peixinho asqueroso, bocudo e rajado como os meus. Que são dissimulados, mimetizadores, camuflam-se entre as pedras do fundo de um aquário, nunca são vistos na superfície, e com suas boconas sugadoras fazem faxina tanto no vidro espelhado como nas pedras lodosas do fundo cascalhento.
O cascudo, ou bodó acari é um peixe de fundo, popular por aqui, conhecido por sua boca em forma de ventosa que raspa o substrato, alimentando-se de algas musgo e matéria orgânica, embora algumas espécies sejam carnívoras ou onívoras. Existem centenas de espécies de tamanhos variados de centímetros a mais de metro. Quem gosta de carne de peixe a dos cascudos tem sabor apreciado.
“Comer os meus cascudinhos? Prefiro comer meus testículos fritos ou assados.
Já tive centenas deles no aquário que enfeita minha oficina de trabalho creio que há quase tantos anos quanto os tenho de vida.
Pra mim meus cascudinhos não são peixes feiosos e de aparência nada agradável entre seus pares.
Os demais são coloridos, de nadadeiras ágeis dentro d’água, pululam no meu aquário como se fossem donos dele. Um dia um japonesinho vermelhinho me convidou a tirar a roupa, ficar só de cueca ou inté mesmo pelado e disputar natação com ele nas águas frias do meu aquário. Disse não; alegando que não sabia nadar embora fosse campeão na piscina do meu clube preferido leiam escrito LTC.
Hoje, já bem cedinho, quando aqui cheguei em baixíssimas horas, ao despejar ração pra peixe na superfície do meu aquário procurei os dois cascudinhos com meus olhos enxergadores.
Os outros, pra mim velhaquinhos safadinhos nadavam arisquinhos na superfície. Disputavam cada bolinha de ração. Os menorzinhos comiam mais. Os de médio tamanho não ficavam pra trás. Já os grandões, tubarõezinhos pretinhos nadadores das profundezas, ficavam com as sobras.
Até essa hora, seis da manhã, não pude ver os dois cascudos. Estariam eles tomando banho no banheiro do aquário ou comendo na copinha?
Agucei meus olhinhos, e mais uma vez não os vi.
Depois de intensa procura vi um deles, o menorzinho, nadando de costas no fundo lodoso.
O segundo, o maiorzão, de maiô nadava estilo cachorrinho.
Ambos, quando me viram tentaram se esconder debaixo de uma pedra branca de uma cor de burro deitado na lama. Mas acabei por reencontrá-los de novo com suas boconas sugadoras grudados na parede espelhada do fundo da sua piscina de águas frias e borbulhantes.
Eu, preocupado com suas magrezas, seria por falta de comida ou por estarem em dieta aquariana? Acabei, usando o meu puçá rede de pescaria, tirando a dupla de dentro do meu aquário. Gostaria de saber o motivo de meus dois amiguinhos cascudinhos estarem tão magrinhos enquanto os demais peixinhos em sobrepeso.
Tirei-os da água por um tempo mínimo para que eles não morressem em terra firme. Seria um ato abominável de minha parte.
E perguntei ao maior qual a razão de sua magreza já que nunca os vi malhar numa academia ou numa escolinha de natação.
O cascudinho maiorzinho disse bem baixinho nos meus ouvidos: “olha seu velho gordo e comilão glutão. Se gordura fosse indicador de saúde porco obeso capado e abatido nas festas de fim de ano não teria morrido tão prematuramente. Cuidado com sua pança viu? Ela já está escondendo esse defunto morto que tens entres as pernas. Em pouco tempo vai ser abatido como o porção que comemos na ceia de final de ano no ano passado”.
Voltei imediatamente com os dois cascudinhos pra dentro do aquário.
E enfiei meu rabinho entre as pernas pra não dar vexame de novo.