A inocente e envolvente Mariazinha continuou seu interrogatório naquele dia das mães a sua amada mãezona dona Maria.
“Mãe, bem sei que hoje é seu dia. Deveria estar reverenciando-a, celebrando com meu irmãozinho essa data. Ou ainda dar-lhe presentes seguido de um carinhoso abraço. Mas a senhora me perdoa no seu dia e de todas as mães do mundo. Ontem vi a nossa vizinha fechar os olhos e os outros dizerem que ela não vai abrir mais. Ela morreu minha querida mãezinha. Ela era tão boazinha, caridosa, não falava mal das pessoas e ainda por cima diziam que ela tinha vocação para ser freira. Todas as pessoas quando morrem vão pro céu? Mesmo aquelas de péssima índole que tratam mal outras que nem conhecem? Quais as exigências que o porteiro do céu exige quando mortos pedem passagem? Teriam eles de mostrar passaporte ou apenas com nossa carteira de identidade nos deixam entrar? E quem é impedido de entrar no céu pra onde eles vão? Como nos consultórios médicos as pessoas que deixaram de viver têm de passar pela secretária bem uniformizada, pagar uma consulta e só então podem entrar pela porta aberta do céu? Mãezinha queridinha. Mais uma vez lhe peço mil desculpas. Percebo, pelos seus olhos, que a senhora deve estar cansada depois de um dia inteiro dedicando-se a nós seus filhos. Mas me responda a umazinha só indagação. A senhora sabe, melhor do que ninguém como sou curiosa e perguntadeira. O céu tem portas ou um vazio grandão por onde entram aqueles que são permitidos entrar por ali”?
Interrogatório concluído e as respostas deixo a vocês que leram tudo isso.
Eu ainda não sei como seria o céu pois, ainda não chegou a hora de passear em sua direção.
Tomara, num tempo pra mim ainda desconhecido. Tenha a felicidade de, naquele lugar que deve ser um paraíso ensolarado, e quando, depois que a chuva cai, lá no alto se forma um lindo arco íris, onde, numa das suas beiradas a gente pode encontrar uma sacola cheinha de pepitas de ouro purinho. Ou um belo diamante azul daqueles que valem seu peso mais que ouro.
Ontem um anjo sem asas subiu ao céu para se encontrar com seu paizinho que mora lá e com outros anjos alados seus amigos chegados.
Boas lembranças me trazem seu sorriso amplo, sua fala estridente, seus gestos meio inconsequentes.
Anjos devem andar descalços usando um par de meias a encobrir seus pezinhos angelicais.
Anjinhos, no meu entender devem ter uma calva prematuramente instalada em sua cabeça pensante.
Anjos devem ter uma maneira diferente de tratar a gente. Devem ser amalucados como esse que ontem nos deixou órfãos de sua generosidade. De seu sorriso posto na boca sem que precise demonstrar tanto alegria aliada à felicidade.
Pensava e repensava que anjos não precisavam de asas para voar. E que eles, os anjos só tinham amor pra doar.
Nos meus pensamentos lucubrava se anjos usavam batina como padres. Ou se anjos eram puros como meninos inocentes que desconheciam qualquer tipo de maldade que infelizmente tem dominado a mente de nós humanos.
Anjos podem ser padres? Fazer carreira na igreja, se tornarem bispos, cardeais ou até mesmo papas?
Esse padre que avoou aos céus no dia de ontem era um cadinho de tudo isso.
Padre Carlinhos era pessoa gentil, devotada à igreja onde se tornou padre anos mais tarde passada a sua mocidade.
Bem me lembro dele quando morava aqui pertinho na Casa Paroquial. Daquele dia quando ele me levou, andando rápido a minha frente, nos pés descalços um par de meias negras e surradas, já mostrando sinais de que sua enfermidade já estava bem adiantada e não demonstrava qualquer sinal de sofrimento.
Padre Carlinhos e eu entramos portão adentro da casa onde se abrigava, e me serviu de um gostoso cafezinho expresso feito naquela máquina de fazer café. Subiu ele e eu por detrás aquela escada que conduz ao andar superior de sua morada junto a outros servos de Deus. Ele manquitolando e eu a passos firmes e rápidos.
Depois fui informado que aquele santo padre havia se mudado a outro céu onde ele agora repousa e descansa na paz do Senhor Nosso Deus.
E eu pude responder a Mariazinha quem pode entrar no céu.
“Mariazinha, pessoas boas como o padre Carlinhos, de alma generosa, afável e gentil, quando nos deixam órfãos de sua bondade eles sim podem ter livre acesso ao céu”.