Hoje senti frio ao descer a rua rumo ao trabalho. A temperatura ambiente girava em torno de doze graus Celsius. Logo o sol esquenta, e a maioria se aquece ao sol, tirando os agasalhos que se tornam obsoletos, da mesma forma que a idade provecta faz com a gente: um traste velho, como aquela blusa que foi doada a um pedinte, que no dia seguinte a fez de manta ao seu cachorro, que nunca o abandona, ao contrário dos falsos amigos, das boas horas somente.
As sensações de frio, de calor, de dor, de desamor, da sofreguidão e desejo veemente de viver, de se desesperar por quase nada, como exemplo cito pessoas da cidade, grande parte, importante, que se descabela por uma simples perda de um reles objeto de estimação, que logo é encontrado, conquanto pessoas simples nascidas e criadas na roça, uma história triste reconto agora, fato acontecido de fato há anos passados, quando ali cheguei repreendi duramente os envolvidos no acidente fatídico, e eles, à minha admoestação simplesmente imputaram a perda do filho mais novo à vontade de Deus Pai, afogado, aos dois aninhos, ainda aprendendo as primeiras passadas trôpegas, caiu de cara num laguinho raso, hoje tomado pelas taboas, veio a se despedir da vida precocemente.
Isso sucedeu há tantos anos, tantos, que minha memória não da conta de precisar quantos são. Em lá chegando, a bordo de um carrinho que hoje faz parte de um ferro velho, de tão idoso e gasto pelos anos, ao ver a criancinha deitada sem vida na mesa da sala de visita, ao lado do corpinho do garoto que se chamava talvez “florzinha do campo morta por um descuido” as mesmas flores do campo enfeitavam o que restou do menino, que teria anos e anos pela vida, fiz uma rude repreensão aos pais dele: “Custódio, como puderam deixar isso acontecer”? “Doutor Paulo. A morte do nosso filho querido simplesmente ocorreu devido ao desejo de Deus. Ele o chamou para junto a si. Pena que ele partiu sem se despedir de nós, pena”.
Ao receber tal resposta, sentindo por dentro uma amarga desilusão, sôfrega sensação, após escutar dele essa ponderação, nada mais fiz a não ser levar o menino mortinho um caixãozinho branco adquirido na vizinha Ijaci, cuidei dos papéis necessários ao sepultamento, e o deixei junto a outros mortos num túmulo de um vizinho de roça, o velho amigo, já falecido, irmão mais usado em anos, foi quem me vendeu minha rocinha querida.
Com certeza o amigo Custódio, de quem guardo boas recordações, junto à sua família, são cinco filhos ainda vivos, sentem saudade do meninozinho passado ao céu antes do tempo certo, a mando do meu Deus no qual acredito piamente, que se manifesta em todas as partes, na copa das árvores, no canto dos pássaros, na ladainha que os cães fazem ao saudar os donos, sejam eles bem aquinhoados pela sorte ou meros pedintes adormecidos por baixo de mantas surradas, usadas em conjunto com seus animais de estimação.
Já eu sinto saudade de quase tudo. Dos meus pais falecidos. De um irmãozinho, de nome Frederico, no qual mal passei os olhos, era ainda um bebezinho chorão, hoje me transformei em um adulto sentimental, no qual a tal maldita sensibilidade se apossou inexoravelmente desde quando mais velho me tornei. Tomara a tal indissolúvel sensibilidade que me cavouca tanto o peito não me deixe tão cedo, como quando o garotinho lá da roça partiu afogado nas águas rasas de uma represinha barrenta, hoje atolada pelas taboas invasoras.
Sinto saudades inclusive de mim. Dos verdejantes anos da minha juventude, estudante daquele colégio que ainda existe não apenas no endereço duplo, um na parte mais embaixo da cidade, outro aqui pertinho, nas barbas do rela do jardim.
Sinto saudade da pessoinha risonha que eu era, mostrando sempre seus dentinhos de leite, que logo caíram ou foram derrubados por um laço de barbante fino, depois de um forte puxão de uma tia falecida, na roça na qual passava as férias de fim de ano, ou no meio dele, quando as notas eram boas, naqueles verdes anos não saía do quadro de honra, sabidamente em português, onde sempre beirava o dez.
Ainda sinto saudade, e uma baita falta, da falta que me fez a primeira namorada, com os nossos beijinhos doces, de lábios atados, a língua afiada ainda não fazia parte da cena, e quase não ficava naquilo só, embora as outras coisas tivessem de ser adiadas para anos mais tarde, naqueles idos anos apenas depois do casamento concretizado, de papel passado, com a moçoila, ainda virginal, tendo de provar e mostrar aos demais a mancha vermelha sangue na alvura do lençol de linho branco, na linda lua de mel, que via de regra não se transformava em fel.
E como sinto saudade da lua de mel, desta feita verdadeira, com a minha esposa e companheira, esteio onde amarro não os meus cavalos, bem como minha intensa tristeza e saudade que irei sentir dela, caso nosso consórcio não dure para sempre, tomara o revés aconteça.
Sinto tantas e tantas saudades, tantas, que, antes de terminar este texto confesso que não consegui chegar à conclusão de o porquê sentir tanta saudade.
Saudade é um sentimento dos que são profundamente amigos da sensibilidade. Daqueles que sentem demasiado. Dos que amaram ou ainda amam, desmesuradamente. Dos que não conseguem se desvencilhar do passado, e a ele recorrem mesmo contra a vontade. Ainda de todos que, num momento de solidão, aliada à angústia, lembram-se em quantia tanta de tanta gente querida, como a família do meninozinho afogado na pequena represa à porta de sua casinha, e, mesmo dentro do seu estoicismo valente, dos seus conformismos pertinentes à boa gente da roça, não passam uma noite sequer sem sonhar com o anjinho de asas ceifadas, num átimo, num descuido, ao vê-lo debruçado sem vida naquele caixãozinho branco, cercado de flores branquinhas do campo.
Se me perguntarem “por que sentir saudade”, eu lhes devolvo a pergunta com outra: “seria talvez por excesso de sensibilidade? Por ainda amar aquela pessoa, ou coisa? Ou simplesmente, fica a resposta sob a forma de uma interrogação. Por que razão?