Ontem, na parte da tarde, na mesma academia onde sempre passo horas em busca da juventude perdida, aos sessenta e sete anos completos essa procura se torna uma sonora utopia, mesmo assim persisto nas correrias desenfreadas na esteira que ao menor toque naquele botão vermelho acode ao meu comando e passa a correr por baixo dos meus pés que não têm sossego, os dois só param perto dos meus computadores no exato momento quando escrevo, ouvi notícias de um amigo, da minha idade, colega do jardim da infância, afável sênior, administrador que criou muito bem uma linda família, que passava por momentos delicados em recuperação de uma cirurgia de grande porte na capital do meu estado. A mesma, segundo informações de um filho, grande personal da mesma academia, arrastou-se por metade do dia de ontem e somente na manhã de amanhã, transformada no hoje, deve ter alta do CTI, para tentar vencer uma tinhosa enfermidade, de natureza covarde, o câncer até nos dias de agora, dependendo do estágio apenas pode ser controlado, o tratamento eficaz, a cura completa ainda não adveio, e a sobrevida do paciente apenas é postergada, adiada sine die, mercê de sofrimentos insanos não apenas ao doente, fazendo compartilhar da sua dor a todos que o rodeiam. Não sei o que vai ser do meu amigo. Colega de infância, junto ao qual fui introduzido às primeiras letras, garatujas que nem o caderninho de pauta deu conta de endireitar.
Mais perto de onde estou mora outro colega, da mesma idade da minha, que aos sessenta e oito anos mais e mais fica perto de uma visita inoportuna, que, mais cedo ou tarde vai me levar junto, em sua carruagem puxada por urubus negros, avisgourentas que ninguém tem o cuidado de trancafiar dentro de gaiolas como os canarinhos amarelinhos de doce cantar. Mas que nos prestam um enorme serviço tirando da natureza o odor nauseabundo da morte, sob o cheiro de carne pútrida.
Mais ainda perto da minha casa, num dia atrás estive em visita a outro amigo, dos mesmos sessenta e tantos anos, bastante debilitado por uma doença até hoje sem cura, para ele foi contraindicado um transplante de medula, pelo grau avançado da fibrose da sua fábrica de células vitais ao organismo, agora parecendo uma colcha de retalhos imbricados, impossível de revigorar. Só de remédios que sua família vai dispender para atenuar-lhe o sofrimento, aumentar-lhe o tempo entre nós, sobe à cifra estratosférica, para um médico aposentado, sem condições atuais de sair de casa, ele vai e volta ao hospital, de mais ou menos trinta e cinco mil reais por mês.
Noutro dia dois colegas meus, dos bons verdes anos da minha infância se foram. Não em viagem de ida e volta. Eles partiram sem passagem de volta, para nunca mais neles poder passar os olhos, vai me ser negado um abraço, um afago, um carinho. Ou até mesmo outro: “que saudade sinto de você”. Olhos nos olhos.
Já na manhã de hoje, dia primeiro do mês de junho, mês que teve seu começo rico na presença do sol, um tanto fresco mais cedo, ao descer a rua em direção ao consultório, que se confunde ao local onde o médico escritor passa metade do seu dia a escrever ou a entreter-se no atendimento aos casos de urologia, cada vez mais parcos devido à crise financeira que o país atravessa, já na parte alta da cidade, pertinho de onde moro, dei com um rapazola, vestido no mesmo uniforme verde oliva dos tempos perdidos da minha doce infância alongada pelos anos.
Como de costume, ao ver pessoas ágeis andarem velozes descendo ou subindo a rua, emparelho-me com eles, deixo-as a comerem poeira, olhando-me por trás, numa velocidade louca como a das seriemas desengonçadas que nos fogem da presença, correndo pastaria afora, em busca de uma cobrinha que pode lhes servir de alimento, ou, por sorte das serpentinhas elas conseguem escapar do bico forte do casal de aves emplumadas, pernas longas, corredoras vorazes, que emitem um som inconfundível do alto das campinas.
Aquele era um jovem a caminho da mesma escola onde aprendi a tomar opinião. Foi naquele logradouro onde se buscar ser gente, dividido em duas metades, nos meus anos verdes comecei a ter lições na parte alta, para a seguir ir ter à sua outra metade, nas barbas da pracinha de nome Doutor Jorge, não sei por honra e glória de quem.
Emparelhamo-nos pelo caminho. Eu, de praxe, com os ouvidos tapados por dois fones de ouvido, como se fosse um jovenzinho antes de entrar à escola, e ele, comportado, apressado, ia veloz como o casal de seriemas para não perder a primeira aula.
Em certo ponto do caminho retirei um dos fones de escuta. Era uma música sertaneja a que estava ouvindo.
Foi então que entabulei conversa com o jovem estudante. Ele me disse cursar o primeiro ano do curso secundário, se preparando para enfrentar medicina, um ano adiantado, já que, pelos liames da vida estudantil, ele deveria, com seus dezesseis aninhos completos, estar um ano atrás.
Durante a nossa curta caminhada juntos, uma vez retirados os dois fones de ouvido, trocamos inconfidências lavreanas. Como está hoje o curso que cuida de salvar vidas e amenizar dores. Quantos anos levam para forjar médicos. Expliquei a ele que para se formar um urologista são necessários longos anos, seis para ser feito médico, e mais cinco para ser feito especialista.
Num certo pondo do percurso, logo na dobra da Santa Casa, como tive de ir para a direita, ele continuou seu caminho reto, despedimo-nos depois de abrir a minha carteira, passar a ele um cartão de visita, onde constava como se ligar ao meu site – www.paulorodarte.com, além de dirigir ao rapaz, assaz compenetrado e estudioso, a meu entender, boa sorte e felicidade na busca do seu futuro, e, ao vê-lo sumir na distância, quase à porta da sua escola, foi que comprovei, olhos rasos de saudade dela, como é triste ver que lá se vai a infância. Levando com ela a esperança, de jovens sermos de novo.