Fimose mental e coisas afins…

Para os desinformados, falando principalmente aos jovens meninos, que tudo sabem como manejar o i-phone, o computador e suas afinidades, são nerds nos Whatsaps, fantásticos conhecedores nas tramas das modernidades, são gatos noctívagos das baladas, mas, como nem tudo beira à perfeição, assim que a gente, médicos especialistas, no meu caso a Urologia faz parte de minha formação há mais de quarenta anos passados, tentamos explicar-lhes da importância da primeira consulta com qualquer um de nós, médicos forjados depois de onze longos anos de estudo após deixarmos os verdes bancos do ensino médio, a eles descontam-se seis no estudo da medicina, quando saímos diplomados em generalidades, sem entender o corpo humano em suas imbricações infindáveis, onde se esconde o tímpano, onde fica a próstata, qual o caminho complicado para se chegar ao átrio direito do coração e demais nuanças lindas da anatomia humana, a urologia não basta atingir a idade da próstata para se deixar escrutinar o corpo inteiro aos quinze anos feitos, um cadinho menos, recomenda a nossa sociedade, a Sociedade Brasileira de Urologia, que se comece a investigar a saúde da próstata a partir dos quarenta e cinco anos completos, no caso do paciente apresentar sintomas urinários antes desta data, ou, da mesma forma, no caso de algum ancestral ter apresentado câncer da próstata em qualquer fase da vida, mesmo tendo falecido antes, dessa mesma patologia, que se tratada em tempo hábil, ainda confinada a tal glândula que perde a serventia depois de certa idade, não sendo mais necessário à formação do esperma, tendo como parceira a glândula vizinha, conhecida por vesícula seminal, um alerta aos jovens, como eu fui, um dia longe: não recorram ao doutor Google para se informarem sobre doenças, muito menos sobre os tratamento desta ou daqueloutra enfermidade, embora seja um excelente conselheiro quando o assunto é cultura geral. Recorram a um profissional de boa formação, oriundo de uma escola confiável, não construída às pressas pelo governo constituído que pode perder o mandato de aqui há poucos dias, na minha modesta opinião o Temer deve continuar, o país mostra sinais de crescimento econômico, na prestação de serviços ainda não,  se possível forjados em escola federal, com residência e pós-graduação titulada em serviços reconhecidos pelo MEC, caso contrário o infeliz paciente pode dar com os burros n’água, mesmo não tendo chovido de véspera.

De tempos perto para a data atual mudei meu atendimento de Urologia, ainda faltam longos anos para atingir a aposentadoria pela prefeitura, pelo estado só a partir dos setenta e um anos, na esfera municipal mais longe ainda, apenas aos setenta e três vou me despedir de uma ambulatório médico de especialidade, situado na zona norte da cidade, o tal de nome pomposo AME. Embora escrito com letras maiúsculas o tal presta um serviço minúsculo aos que ali marcam consultas, esperam pacienciosamente a sua vez e, uma vez chegado o momento de tanta precisão recebem um “não pode, não tem como lhe encaminhar a sua fimose, a cauterização de seus condilomas acuminados, a cistoscopia que tanto pode ajudar no diagnóstico de sua hematúria vista a olhos desnudos, como também de nada vai servir na feitura de uma vasectomia tão  importante no caso de ter, em comum acordo com sua parceira, que é chegada a hora de interromper  a procriação, encerrar a carreira de touro reprodutor, embora a vasectomia não retira os testículos e sim liga os canais deferentes, canalículos que conduzem o espermatozóide que não chega ao óvulo na sua caminhada lenta pelas trompas de falópio”.

De quando em vez, não sempre, recebo alguns encaminhamentos de colegas mais jovens, ainda não expertos em sua arte de não apenas curar como também diagnosticar enfermidades, de áreas tais como a minha, a intrincada especialidade de tantas operações difíceis, passíveis de complicações, como exemplo cito a operação de próstata feita depois de mal indicada, cada próstata tem seu momento de ser retirada, seja de natureza maligna ou caso benigno seja o tumor, pois de uma cirurgia antecipada, ou que seja pela via errada, ou, em se tratando de um câncer na próstata, caso o operador a faça não pelo método correto, hoje existem incontáveis deles, a mais moderna é o robô, as complicações inesperadas são difíceis de equacionar, e os tais pacientes insatisfeitos com o resultado, por vezes conseguiram pagar parte da operação, como não mais lhe sobraram recursos recorrem a quem? A mim, a outros colegas, que têm a infelicidade de ter de militar justamente naquelas unidades de saúde pública onde apenas as consultas são nossas obrigações de atendê-las da melhor maneira de que o sistema de saúde gratuito nos põe a mão. Embora, hoje raramente acontece, nem de luvas confiáveis o urologista têm a seu serviço, muito menos uma simplesinha pomada lubrificante em falta na tal unidade constituída, por sinal mal construída, quando a chuva despenca a sala de atendimento alaga, onde falta luz artificial, não conseguem trocar as lâmpadas, por problemas de fiação, quantas e tantas vezes os médicos atendentes são obrigados a trocarem de sala, não sendo este problema menor o mais importante dos tantos que ali me esperam.

O que mais me faz perder o resto de sono, não falo nos ralos cabelos que apenas deslizam suaves pelas têmporas, são os encaminhamentos que jovens médicos, principalmente os pediatras mais e mais raros nos cursos pós- médicos, quase nenhum profissional formado deseja se especializar em pediatria, como a eles  é difícil suportar não só os gritinhos de meninos levados, que promovem badernas nos consultórios privados, como pior ainda as ligações das mães, fora de hora,  e quando o pobre médico de criança atende ao telefone parado na cabeceira da cama, lá pelas tantas da madrugada, tentando dormir um cadinho após um plantão recheado de choros e reclames das mães de primeira viagem ansiosas por suas crias menores não estarem se alimentando bem, no entanto os pequerruchos estão com o peso acima da média que a tabela mostra, ao ler aquele papel, tão comuns nas mesas onde atendo seis dias por semana, onde está escrito, quando posso ler aquelas letrinhas ilegíveis, verdadeiros hieróglifos do antigo Egito, que aquela criancinha precisa de atendimento urgente por ter nascido com os dois testículos fora da bolsa escrotal, ou, noutro dia perto, a pediatra me encaminhou um meninozinho dizendo que ele era portador de uma epispádia grave. No entanto ele apenas exibia no seu pintinho nanico uma enorme fimose encapadinha, chamada por meus avós de bico-de-lamparina. No dia seguinte mais uma incorreção do tal papel assinado por uma colega de farda, não afeita às patologias urológicas.

Ali estava escrito: “ ao urologista. O menor fulano de tal, que bem poderia se chamar Manoel, ou Paulinho, foi atendido no meu posto de saúde com o saquinho em falta das duas bolas”.

Ao lado da mãe da criança um laudo de ultrassom, mal feito, mal indicado, com seguinte inscrição, abaixo das imagens do abdome do meninozinho pobre. O qual esperou dois anos e meio para fazer tal exame. Via SUS, bem dito. Exame absolutamente normal, para encurtar a história da Carochinha que nada mais era.

Ao pedir que a mãe da criança, do sexo masculino, despisse o filho único, ao examiná-lo atentamente constatei, apenas com os dedos da minha mão destra, que tudo ia bem com o saquinho cheio das duas bolas. Nada estava errado com o menino. Apenas uma fimosezinha apertadinha estava a lhe incomodar o pintinho que ainda não piava por aquele motivozinho. Fácil de resolver, bastasse um puxãozinho sôfrego, e a cabecinha do seu piupiuzinho viu a luz do sol pela primeira vez na vida resumida dos seus menos de dois aninhos.

Ontem, pela manhã, ao deixar aquela unidade de saúde de nome pomposo: AME, só na próxima quarta ali vou de novo, depois de tantos encaminhamentos equivocados, com diagnósticos errôneos, foi que pensei em que título dar ao meu escrito.

Que tal fimose mental? Ou epispádia cerebral?

Em absoluto, bem resoluto, não quero aqui deixar nenhuma crítica aos bons pediatras da vida. Mas, uma ressalva fica. Cuidado ao escreverem nos papéis onde se fazem encaminhamentos, não cometam latrocínios não apenas com a linda e mal tratada língua portuguesa. Cuidado com os diagnósticos muitas vezes equivocados. Um dia um deles pode levar a processos. Sobre os quais a justiça brasileira está de saco cheio. E pode sobrar a nós, médicos militantes nos serviços de saúde do governo, qualquer dia destes, termos de desembolsar uma baita soma em dinheiro, caso um desses processos derem ganho de causa aos queixosos. Que em nada me assombram, nestes mais de quarenta anos no exercício de uma profissão tão linda, melhor ainda em tempos idos.

Fimose mental, ou epispádia cerebral, são mais dois sofismas meus. Que me perdoem aqueles que se sentirem injuriados com este texto nascido da minha fértil vivência pelos descaminhos tortuosos, pelas andanças da medicina hodierna, que, infelizmente, tornou-se odiosa grande parte das vezes…

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