Mesmo depois de tudo não lhe guardo rancor

Eu não sou de dar a outra face depois de um tapão no rosto.

Muito menos tento revidar. Não digo que esqueço a ofensa ou a agressão.

Mas risco aquela pessoa das minhas relações.

Guardar mágoas ou rancores não faz parte do que tento ser.

Quando mais jovem. Mocinho namorador. Molequinho arteiro.  Quando algum coleguinha tentava afanar-me a namoradinha respondia simplesmente: “pode ficar com ela. Tenho outra melhor e mais bonita na reserva. Você, ingrato, pode ficar com a titular. Desde que não retroceda e a devolva a mim do jeitinho que ela era. Ainda virginal quando a encontrei”.

E ele não a devolvia intacta. Com o mesmo selo de castidade com que ela nasceu.

Ao revés. A pobre garotinha. Antes ingênua e inocente. Era devolvida muito pior que dantes.

E ela acabou se tornando garota de vida fácil. Como se fosse fácil ser mulher que vende o corpo em troca de alguns caraminguados. Prostituta prematuramente. Rameira como muitos a chamam. Mulher que mora num prostíbulo. E dali se evadi sem nada valer no seu futuro ingrato.

Na minha cidade penso ser ele o dono de farmácia com mais anos atrás do balcão. Segundo ele mesmo me afiançou até a presente data foram mais de sessenta anos indicando este ou aqueloutro fármaco para tentar curar ou amenizar as suas dores.

Ele, aquele senhor circunspecto e ao mesmo tempo brincalhão. Nunca o vi dirigindo um auto.

Sempre de um jeito aprumado. Caminhando sempre por toda a cidade. Nos seus quase noventa anos. Quem o vê no máximo lhe dá menos de sessenta.

Ainda não vou declinar-lhe o nome. Já que o primeiro sei de cor.

Já o segundo, ou o terceiro sobrenome não tenho ainda nem noção.

Segundo me consta nos anais de minha curta história. Este senhor, não tão alto como uma palmeira. Nem tanto baixo como um pintor de rodapé. Com quem estive antes da hora do almoço. Por detrás do balcão de sua farmácia. Creio que uma das pioneiras em nossa Lavras antes do Funil. Agora tida como dos ipês e das escolas. Tendo sobre seus ombros a pecha de cidade culta. Já eu não penso assim. Se alguém pensa ao revés que me contradiga. Não irei revidar contradizendo não.

Foi com ele que fiz um selfie. E postei no face na parte da manhã deste dia sete de novembro.

Nós nos deixamos fotografar com meu Leia com meus olhos no nosso meio. Seu neto. O Du, herdeiro maior do seu negócio foi testemunha ocular de nosso encontro.

Seu João, entendedor de fármacos. Que não possui a titulação de doutor. Mas entende de doenças como muitos de nós. Médicos por formação. Traz dentro de seu sorriso tímido a simpatia dos grandes homens. E a bondade e honestidade virtudes hoje rarefeitas como o ar que nos entra narinas adentro.

Ele bem conhecia meus dois avós. Tanto o vô Alberto de Abreu como o Rodartino Rodarte.

O primeiro aposentado da Rede Mineira de Viação. Carpinteiro por vocação. Como foi Jesus.

Já o segundo. Que usava um terninho azul marinho com riscas de giz branco. Uma camisa de um branco desbotado. Mal passada. Motivo de insatisfação de minha avozinha Belica. E um suspensório a segurar-lhe as calças do mesmo tom. E andava pela nossa cidade de cabo a rabo usando uma sandália gasta que já foi marrom.

Tabelião e escrivão que já fez no seu caderno pautado o registro de incontáveis casamentos que depois viraram pó de ressentimentos.

Se bem que não me lembre. Já que tempos avoam. Quando menino. Naquela casa da Costa Pereira- número 152, quando me sentia dodói, minha saudosa mãezinha Rute chamava o Seu João da Farmácia para me aplicar injeção.

E como eu era magricela no bracinho descanado de carne. E era a minha bunda que sofria com as injeções dolorosas. Quem já tomou Benzetacil sabe como dói a picada.

Agora, de criança chorona passei a velho chorão. Choro por qualquer coisa. Que me moleste ou não. Choro por excesso de sensibilidade. Choro por manha mesmo.

Apesar dos apesares não guardo rancor ao João da Farmácia Nossa Senhora Aparecida.

Ao contrário. Tenho por ele em alto conceito e admiração.

Não é qualquer um que consegue enfrentar sessenta anos de balcão. Dando injeções. Doidas ou não. Aviando receitas. Ou até mesmo receitando. Errando ou acertando.

Pois errar faz parte da natureza humana. Mas, persistir no logro é errar em dobro.

Meu amigo João da Farmácia Aparecida. Que Deus o guarde em sua vida inteira.

Que os anjos e os arcanjos digam amém.

 

 

 

 

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