Como tem chovido nestes últimos dias.
Agora mesmo chove copiosamente.
Durante a noite a chuva não parou um instante sequer.
Na academia na tarde de ontem a chuva nos impediu de sair à hora costumeira.
Do lado de fora mal se via a azulice do céu. O entorno estava plúmbeo.
Deixei aquela sala onde poucos se exercitavam usando um guarda-chuva. A ele chamo o pai dos esquecidos. Pois, o pobre que nos abriga quando a chuva cai, não algumas solitárias vezes permanece no local onde foi deixado. E somente na outra chuvada nos lembramos de sua pessoinha feita com um cabo, que tanto pode ser de metal, uma capa de tecido variado, e varetas onde se seguram a mesma capa que nos homens é da cor negra urubuzenta. E, nas mulheres, muda de nome. Chama-se sombrinha.
Hoje mesmo, ao deixar meu apartamento, aqui nas vizinhanças, pensei prescindir do tal guarda-chuva. E, ao deixar o portão, caiu um chuvisco pequenino. Que não me molhou quase nada. Fora o lindo sapato marrom. Resultado de um catira por um dos livros meus.
A tal galocha, antes usada nos dias chuvosos, tornou-se démodé. Nem sei onde comprá-la.
Parece que, a exemplo dos dinossauros, está extinta. Ou em vias de.
E a mesma chuvadonha caía na rocinha minguada de um compadre meu. Apelidado pelos vizinhos de Chico Pinico. Não Penico, como aquele pequeno jarro, de lata esmaltada. Tinto em branco ou outras cores que nunca vi. Também chamado por urinol, aparadeira, bacia, bispote, cabungo, calhandro, capitão, comadre, louça, mátula, mijadeiro, popó, e outros que eu e o Google desconhecemos.
E o velho Chico Pinico, uma vez subida a serra alta, com quase oitenta anos, até a presente idade não havia feito o exame de próstata.
Se bem que não houvesse história familiar de câncer naquela glândula que no idoso só serve para amolar. Pois, quando jovem tem serventia. Participa da formação do esperma. Onde nadam milhares de celulazinhas batizadas de espermatozoides. Pena que apenas unzinho deles consegue furar a armadura do óvulo e dessa junção nascer um bebê chorão. A mesma glândula prostática. Quando a gente atinge certa idade. Nuns mais prematuramente. Noutros mais tardiamente. Ela engorda e abraça a uretra nas vizinhanças da bexiga urinária. E, como se fosse um nó apertado de uma gravata ela acaba sufocando a urina. Que tanto pode entupir a saída como urinar, ou mijar, cadinho a cadinho durante a noite. Em pingos ou gotas clarinhas ou turvas. Quando coexiste infecção na urina. E, durante uma noite maldita a tal urina, que antes enchia o pinico do Chico Pinico. E o fazia transbordar por debaixo da cama. Causando uma fedentina danada no piso do quarto de dormir.
E adentrou a galope num trote fraco o mês de novembro.
Mês quando os urologistas gostam de lembrar que é tempo e hora de se deixar examinar como vai a saúde da próstata. Usando o nosso dedo. O indicador. Em muitos especialistas este mesmo dedo mede pouco. E não é tão grosso como um cabo de enxada. Mas o tal toque não tem retoque. Embora muitos pacientes gostam tanto deste exame que logo que saem do nosso consultório procuram uma segunda ou terceira opinião. Qual é Sebastião?
A fim de ficar naquela posição incômoda. Muitos urologistas usam a posição de pé. E, pelas costas enfiam o dedo no orifício chamado anus. Ou se preferirem se escreve com a letra c seguida do u. Já outros, como eu, usam fazer o toque na posição de quando uma mulher prenha vai dar a luz a uma cria. Com as pernas suspensas numa cama apropriada. E, sem ver a cara do médico o paciente nem sente dor ou deixa de consentir o exame. Que não dói nem tira pedaço. Muito menos a virgindade do macho.
Naquela noite chuvosa o pinico do Seu Chico encheu e derramou.
E o pobre nem conseguiu dormir. Foi uma noite de pesadelo. De segundo a segundo ele tentava mijar. No pobre e calado urinol não cabia mais nenhuma urina.
E o velho Chico ia ao banheirinho tosco que ficava do lado de fora da sua casinha pequenina. Onde o seu amor pela Colombina começou e terminou.
De repente, não mais que num repente, a urina do Seu Chico Pinico empacou. Como a sua velha égua Mariana, por quem tinha verdadeiro xodó, fez um dia quando o menininho Chiquinho tentava levá-la a um cupinzeiro morto.
E a chuvarada persistia. Não mais se via o sorriso do sol ou azulice do céu.
E, naquela rocinha erma, que nem postinho de saúde tinha, quem iria amenizar as dores do velho Chico Pinico. E ele orava ao seu paizinho do céu para que ele intercedesse ao seu favor.
Que mandasse logo um especialista em bexiga entupida. Um entendedor das doenças da próstata. Alguém que porventura passasse por ali e enfiasse uma sonda na sua uretra em pé de guerra chorosa para esvaziar-lhe a bexiga urinária.
Foi quando fui chamado ao celular. Uma vozinha fanha me falou do outro lado da linha: “por favor. Meu bom doutor. Me acuda. Não consigo mijar. A minha bexiga está por um fio pra estourar. Tenha pena de mim”.
Ali apeei num piscar das gotas de chuva. Levando duas sondas na minha maleta de doutor.
Com ou sem vaselina consegui chegar ao ponto final da sua uretra. Seu Chico Pinico fazia caretas de dor.
Enfim a urina saiu. Mais de quatro litros de mijo meio sujo e fedido.
Depois de feito o toque. Ali mesmo. De pé. Fiz o diagnóstico de Hipertrofia Benigna da próstata (HBP). No jargão médico especializado.
Aquele atendimento ficou na pendura. E eu não esperava outra alternativa. Pois Seu Chico Pinico era bem pobrinho.
E a chuva continuava a cair.
E aquela foi a gota d’água na vidinha descolorida do velho Chico Pinico.
E, dias depois foi feita a operação. Pelo SUS.
Já na semana passada recebi a visita do Seu Chico Pinico. Ele veio ao consultório sorrindo com a sua banguelice banguela. Trazendo num embornal surrado dois frangos caipiras já depenados. Duas dúzias de ovos de um tamanhão como o dedo de um colega de farda que muitos pacientes fogem dele como o diabo de mulher zaroia.
E me agradeceu penhoradamente. Depois de me prometer pagar aquele atendimento de urgência na sua rocinha prejuizenta.