A herança do Juquinha

Nem sempre, quando perdemos alguém querido, a gente recebe alguns dividendos.

A melhor herança recebida dos meus pais foi a educação que me deram de presente. Os exemplos que eles deixaram. E a saudade que ainda guardo deles dois.

Bens materiais também me ajudaram no começo da minha vida profissional. Quando mais precisava meu pai, lá do alto, ouvia meu pedido em forma de oração. E não se furtava a me ajudar. Nas dificuldades ele me ouvia. Nos momentos de aflição sentia a sua mão no meu ombro. E me lembrava dos seus conselhos sábios: “meu filho. Tenha paciência. No mais tardar noutro dia tudo vai dar certo. Não se desespere. Não percas a esperança e continue a sonhar.”

E de fato dava. Mesmo na minha descrença em dias melhores.

Tenho assistido, na minha vida nesses meus setenta e cinco anos, distintos tipos de heranças recebidas.

Um dia um amigo e vizinho de rua. Ao ler o testamento de seu amado pai. A ele deixou uma fazenda e uma infinidade de bois no pasto a engordarem. E ele fez bom uso da herança. Conseguiu, graças ao esforço próprio e dedicação fazer engordar ainda mais seu patrimônio. Hoje colhe os frutos da sua herança. Na sua região é tido como dono de um latifúndio cujas terras ultrapassam o horizonte. Enricou ainda mais com o passar dos anos, merecidamente.

Já outro, de nome Arturzinho. Sujeito devasso de vida irregular. Que nunca quis nada com o trabalho pesado. Em poucos anos pôs fora tudo que recebeu dos seus pais. E hoje vive a mendigar. Mais um andarilho desses que se encontram a cada dia.  De eira em beiradas a se lamuriar da sorte madrasta que ele mesmo foi responsável por se achar.

Já outro amigo, de agradável convívio, chamado Juca, apelidado Juquinha por ser de tamainho diminuto. Não teve tanta sorte com a herança deixada por seu amado pai. Ou será que teve?

Era de família rica. Gente de bom conceito na comunidade.

O pai de Juquinha era fazendeiro próspero. Gente da terra acostumada a enfrentar tanto a poeira da estrada quanto as chuvas que inundavam tudo.

Seu Honório morreu antes dos cinquenta. Sofria de tudo um cadinho. Seu coração não batia. Apanhava. Sofria de artrite e era também asmático. Aos quarenta passou a sofrer da próstata. E como sofria para urinar. Antes de chegar aos cinquenta teve de ser internado. Só não morreu pois não lhe era chegada a hora.

Juquinha era bom filho. Único varão daquela família de fazendeiros. As duas mulheres casaram e se mudaram. Mas Juquinha nunca deixou o pai quando ele mais precisava. Sempre presente nos piores e melhores momentos.

Quis o destino que Seu Honório se fosse. Era um dia cinzento. Triste efeméride em toda vizinhança.

O testamento foi lido atentamente na presença de toda a família. Principalmente para o fiel Juquinha. As filhas nem se importavam pois viviam distantes.

“A minha filha Dorotéia deixo como legado a casa sede da fazenda. Desde que ela passe a morar aqui. A outra, Inácia, que sempre gostou de bois. Deixo a ela mais de mil bois. Desde que ela se dedique a engordá- los.

E a você, meu filho querido. Sempre presente na minha vida. Que viu de perto meu sofrimento, deixo a minha artrite. Faça bom uso da sua próstata. Não deixe que ela cresça e apareça como a minha.  E, se seu coração falhar, lembre-se do meu que parou de bater naquela hora ingrata. Cuide bem dos seus rins, antes que eles deixem de filtrar urina. Tenho certeza que você, meu filho predileto. Vai fazer bom uso do seu corpo como não fiz do meu. Essa é a herança melhor que poderia lhe deixar. Já que terras, bois, fazendas enormes não serão suficientes para te fazer feliz. Viva com esses meus legados. Ai sim, vais poder desfrutar desses outros bens materiais.  Que não são tão importantes como a saúde que, se um dia a perdermos, pode ser tarde demais”.

É exatamente esse o legado que gostaria de deixar aos que vierem depois de mim. Cuidem da sua saúde melhor que tentei cuidar da minha.

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